terça-feira, 30 de julho de 2019

Nascimento de uma família!

O Pedro e a Andreia são “um casal BragaMaterna”.
Conheci-os enquanto responsável pelo Curso de Preparação para o Nascimento do Centro BragaMaterna e desde então (fins de maio) nunca mais nos largamos. E não nos largamos, literalmente. Falamos todos os dias, desde que nos conhecemos (mesmo eu estando de férias na praia 😅 ), estive online no parto deles, estou onlie todos os dias e todos os dias recebo noticias deles (e fotos deliciosas).
O Pedro e a Andreia são um casal especial. Especial, por muitas razões e de entre elas, quero destacar uma, que, do meu ponto de vista e da minha experiência profissional de 10 anos de acompanhamento de casais,  são muito difíceis ou raras de encontrar.
Que é o facto de serem um CASAL GRÁVIDO e por todo o seu sentir, desde vivência da gravidez, decisões, escolhas, discurso e afins ser feito e vivenciado no plural. 
Sinto mesmo que nunca tive um casal tão conectado entre si durante a gravidez. O comum é, uma mulher grávida E um homem à espera que as 40 semanas passem. O comum é, um “homem empata e medroso” que não percebe/apoia/respeita/confia na sua mulher e no processo de gravidez e parto (sendo em alguns casos, “narcisista” ao ponto de decidir onde vai e como vai a mulher parir o seu filho) OU o típico  e mais comum, “delegador de decisões” , “tu é que sabes” “tu é que decides” ou “tu é que estás grávida”.
O Pedro e a Andreia trabalham em equipa, e o Pedro é aquele companheiro de vida que enaltece, incentiva e empodera a “sua” grávida. 
O Pedro representa o companheiro que toda a mulher merecia ter na gravidez e no parto…
O Pedro pariu com a Andreia. Não foi mero expectante, acompanhante ou afins. 
E depois são um casal especial, também, por isto!
Incentivo a escreverem o seu relato de parto, assim como o faço a todos os casais com quem me cruzo, e surge esta delícia e este ato de enorme generosidade de partilha de momentos tão seus, com todos os outros casais. 

Tão grata que sou pelo universo me dar a oportunidade de ver nascer estas famílias, assistir ao crescimento, de uma forma consciente, de ativistas por melhores nascimentos para todos.
Neste caso particular, não só o nascimento de uma mulher ativista, como é mais comum, mas também de um HOMEM ativista pelos direitos no parto e nascimentos mais respeitados e positivos.

A Enfª Anita, que os acompanhou no período expulsivo, escreveu-me as seguintes palavras 
“São um casal incrível e foi um privilégio para mim estar com eles!!! O parto foi lindo....😍"
Eu... subscrevo na íntegra! 💝

Relato do nascimento do Simão! 

 "5 anos passaram desde a nossa primeira experiência de parto. Experiência que pensávamos que tinha sido quase perfeita.
E dizemos "quase", porque a partir do momento em que uma enfermeira “salta” para cima da nossa barriga, deixando-nos desconfortáveis e sem respirar, da dose de epidural administrada ser tão “pesada” que nem sequer as pernas sentir e termos sido “ameaçados” com o uso de ferros por não estarmos a puxar como devia ser, perfeito deixa de fazer sentido. Por isso ficamo-nos pelo quase.

Os tempos passaram e as informações que nos faltaram antes, na primeira experiência, foram chegando e de diversas formas. Frequentamos  o “Curso de Preparação para o Nascimento”, organizado pela BragaMaterna (Ana Luisa Barbara) com uma pessoa muito especial, pessoa essa que não conhecíamos de lado nenhum e que rapidamente, pela sua forma de ser e pela forma carinhosa com que nos tratou ,se tornou uma amiga para a vida, essa pessoa dá pelo nome de Patrícia Capela.
Saímos do curso pessoas diferentes, seres humanos muito mais, conscientes, informados e preparados para o que aí vinha.
E o que aí vinha, começou no dia 10 Julho pelas 20h. Algo não estava normal. Barriga dura e pressão no fundo. Essa pressão começou a ser mais ou menos regular e por volta das 23h30 decidimos ir ao hospital. Estávamos na altura com 39 semanas e 5 dias.
Banho tomado, acabamos de preparar a mala do Martim, levamo-lo a casa da avó e decidimos, “Vamos para a Póvoa”!!
Apesar de não ser a opção que tínhamos em mente até há algum tempo, optamos pelo CHPVVC,  por tudo o que pessoas amigas nos contaram, pelos relatos positivos de quem ali pariu e porque os relatos consultados no Birth Advisor,  nos permitiram ter a certeza de que aquele sítio seria o ideal para o parto que desejávamos, ou seja, um parto respeitado e informado.
Chegamos ao CHPVVC, fizemos a respetiva triagem, e fomos encaminhados para o serviço de urgência de Obstetrícia.
Chegados a Obstetrícia, fomos recebidos por uma Enfermeira super simpática, de rosto meigo e voz carinhosa, a “Enf. Daniela”. Avaliou a dilatação, 2,5/3cm, colo ainda grosso. Após consulta médica, e por sermos de longe, propôs internar e vigiar. Entregamos o nosso Plano de Parto nas mãos da Enfª de voz carinhosa, que foi lido pelo Obstetra Dr Amorim e que nos garantiu que seria respeitado.
E lá fomos nós, para os nossos humildes aposentos. O tempo passou e nada aconteceu. Passamos a noite, ali no nosso cantinho, sem sermos incomodados, calmos e sem desconfortos.
Chegou a manhã do dia 11 e nada aconteceu. Após novo exame vaginal, solicitado por nós, tudo se mantinha igual.
A cabeça já estava a 1000 a hora, o stress já se estava a apoderar dos nossos corpos e a ansiedade de ter o nosso Simão nos nossos braços já era tanta que, após conversa com a Enfermeira, onde expusemos os nossos medos e receios, optamos por uma pequena dose de ocitocina no soro, e aguardar evolução. O que é certo é que nada resultou. Entretanto, já com antibiótico administrado em várias doses, e por sugestão da simpática Drª Helena, optamos por vir embora e aguardar. Achamos que seria o melhor para nós e para o nosso Simão. Sabíamos que “forçar” a situação de evolução do trabalho de parto, iria acarretar riscos, e esses riscos, não queríamos correr.
Dia 13 eis que algo mudou. De manhã, a barriga dura e pressão baixa novamente, vinha acompanhada de vontade de ir à casa de banho. Decidimos aguardar a evolução.
 Durante a tarde foi ficando tudo mais regular 8/8min, apesar de sem dor. Ao fim do dia, decidimos novamente ir ao hospital e sermos reavaliados novamente.
Deixamos o Martim na avó e seguimos caminho para a Póvoa.
Ao chegarmos fomos recebidos novamente pela Dr.ª Helena, colocamos as cintas e tudo parou, pensamos nós, “outra vez não”!! Nada de contrações.
Após o exame vaginal, 2,5/3cm, colo posterior, 30%  extinto. Ou seja, quase tudo igual à dois dias. Fizemos ecografia e a Dr.ª Helena, detetou uma diminuição significativa de liquido amniótico. Explicada a necessidade de internamento e sugerida a retoma de indução, desta vez, através de comprimido vaginal, aceitamos, e logo tivemos a noção que o nosso plano de parto teria de ser alterado.
Entre mudanças de turno apareceu-nos (mais) um “anjo na terra”, a Enf. Élia. As contracções começaram a surgir, mas nada de mais, a nível de desconforto. Novo exame sugerido e por nós autorizado, e percebemos que o comprimido vaginal, não tinha dissolvido. Foi então sugerido o descolamento de membranas (o tal toque maldoso) ao qual acedemos devidamente conscientes e informados de todo o processo. Após essa intervenção tudo mudou e as contracções começaram a surgir de forma mais regulares e as dores começaram finalmente a  aparecer. Graças à mobilização na bola de pilates e as massagens e carinhos por parte do maridão tudo ficou mais fácil de suportar.
As horas foram passando e a Andreia, que até nem gostava de gelatina, consolou-se!!Diz que as de morango, eram deliciosas.😉
Por volta da 6h e já com o catéter epidural colocado, a bolsa de água rompeu, e a partir daí tudo ficou mais rápido e doloroso.
08h da manhã e nova mudança de turno. Despedimo-nos da Enf. Élia e recebemos mais um “anjo na terra”. Desta vez, a Enf Anita, pessoa de voz serena e cara simpática que nos deixou super descontraídos e calmos para o momento exigente que se aproximava. Estava quase a acontecer.
10h da manhã, as contracções começam a ser cada vez mais fortes e começa a vontade de puxar.
Já com a Enf. Anita a 100% no nosso cantinho entre puxa e respira, as palavras meigas e de incentivo da Enfª foram tornando tudo mais fácil de suporta. As contrações vinham e iam e com elas os puxos. Passados 50 minutos, a exaustão instalou-se. “ Eu não consigo mais, já não aguento”. Perante isto, a Enfª Anita pede à Andreia que adote outra posição em que se sinta mais confortável, e sugere, pé direito no fundo da cama e pé esquerdo no ombro da Anita (sim! é verdade, pé no ombro da Enfª , que se pôs completamente à disposição da Andreia. Não vos consigo explicar o que para nós isso representou).
Naquele momento era a posição mais confortável para puxar e passado pouco tempo logo se começou a ver a pequena cabecita do nosso Simão. “ Pedro anda ver!!” , “Andreia queres ver também? Alguém que arranje um espelho” e logo o espelho apareceu. Foi um momento mágico que fez  com que as forças da Andreia reaparecessem. Só faltava mais um bocadinho!!
Ainda houve tempo para uma brincadeira, “ Anita a mãe diz que vai ter cabelo aos caracóis, consegues ver???” E foi a gargalhada que faltava.
Nova mudança de posição, palmas dos pés juntas e mãos a amarrar os pés e foi assim que tudo aconteceu, eram 11h28 e o nosso Simão veio ao mundo, 3,5kg e 50cm de gente que nos encheu de amor e emoção. 💕

O pele a pele foi logo feito nesse instante e o nosso mundo ganhou uma nova cor. Aguardamos que o cordão para-se de pulsar e efectuamos o corte do mesmo. Mais um grande momento de emoção.Mantivemos o pele a pele até que a placenta saísse. Momento que ficou registado em fotos, Algo, que não pensávamos que fosse possível, ver aquele saquinho mágico que alimentou o Simão  durante 9 meses. 
Este momento e fotografia da placenta, ficará para sempre nas nossas memórias.
Aguardamos que fossem feitos todos os restantes cuidados à mãe e ainda em pele a pele  começou também a primeira mamada do pequeno Simão.
Tudo o que foi feito à mãe e ao Simão após o seu nascimento, foi feito na maior das calmas, serenidade, descontração e sempre em conversa agradável com a Enf Anita.
Foi tudo tão bom que éramos capazes de engravidar já novamente só para poder passar por estes momentos outra vez.
Tivemos no bloco mais 2h até que passamos para o internamento onde vivemos também muito bons momentos, descansamos o possível e aguardamos o grande momento que iria acontecer nessa mesma tarde, o encontro entre irmãos.

A tarde chegou e o tão esperado momento, também. O Martim entrou no quarto todo entusiasmado,  sorriso rasgado no rosto e já com o Simão no colo disse, “ oh é tão fofinho"!
Foi um dia repleto de emoções que sentimos que passou tão rápido.
Antes de virmos embora conseguimos estar com a Enf Élia e agradecer tudo o que fizeram por nós.
Mas queríamos aproveitar este relato para agradecer a toda a equipe de Obstetrícia, desde médicos , enfermeiras e auxiliares que estiveram connosco nestes dias.
Obrigado por existirem e por favor, nunca mudem a vossa maneira de ser e de cuidar de todos nós no nascimento dos nossos filhos.
Conclusão, viemos à procura do vale encantado para parir e aqui o encontramos, o vale, as fadas e muito mais…
OBRIGADO! pelo Parto consciente, Informado e Respeitado que nos proporcionaram!Agora sim, uma experiência perfeita 😊

Ass.: Andreia e Pedro"

quinta-feira, 4 de julho de 2019

A "moda" dos Planos de Parto e Nascimento


Tenho recebido através deste meu cantinho,  alguns pedidos de ajuda (a maioria, de casais que nem sequer conheço 😉  ) para a elaboração dos seus Planos de Parto. 
Agradeço a forma como chegaram até mim e agradeço a confiança no meu trabalho🙃 (confiar em mim apenas pelo que escrevo nas redes sociais, coloca-me num patamar de responsabilidade, pouco confortável 😉🙏).
Como tal, deixo algumas mensagens/ "informação" para todos  aqueles a quem, o consentimento informado em Obstetrícia e desejos no nascimento, possam interessar.
O Plano de parto é um documento pessoal, único e elaborado pelo próprio casal, onde de antemão, este, apresenta informações claras e precisas relativamente às opções que gostaria de ter e intervenções que gostaria de evitar. Ora o que faz sentido para uma grávida/ casal e para a sua experiência de parto, poderá não fazer qualquer sentido para outro. Por isso, sou tão aversa a existir um documento protótipo para todos os casais, no hospital/maternidade. 
Não defendo esta prática (apesar de a perceber) e não promovo este tipo de documento.
Conheço bem, um hospital que tem um documento único implementado, que denominam de "Plano de Parto", mas, porque discuti e assinei esse documento na minha/nossa Consulta de Plano de Parto, estou plenamente à vontade, para vos dizer que, aquele documento, apesar do nome, é nada mais, nada menos, que um COMPROMISSO escrito,
 daquele serviço e de toda a sua equipa, quanto ao que, de protocolos ou rotinas se aplica nos nascimentos, naquele local.
E, a comprovar o que pretende aquela equipa, é a realidade implementada há anos de, em ambiente de consulta multidisciplinar (EESMO/Parteira E Obstetra) o casal apresentar o seus desejos para o nascimento de seu filho E perante as rotinas/protocolos instituídos  plasmados no documento hospitalar "Plano de Parto", se  pronunciar sobre as mesmas, ficando registado e assinado pelos intervenientes tudo o que não é ou será consentido no dia (RELEMBRO QUE, qualquer decisão previamente acordada pode ser revogada pelo casal "no dia e na hora").
Sei igualmente, que outros hospitais estão a caminhar para a implementação do "Plano de Parto hospitalar" o que, independentemente das razões que os levaram a tal, digamos...me deixa apreensiva.
Uns querem fazer acreditar que "não é preciso escrever nada no papel" porque na hora basta dizer de "boca" o que desejam...
Outros apregoam aos "7 ventos", que têm Plano de Parto, mas na realidade quando o casal aborda o tema nas "consultas de termo" com a equipa, é-lhes dito, que "não estão a aceitar"...
Outros apregoam que aceitam todos os Planos de Parto que os casais apresentem NO dia...
Outros implementaram um documento tipo, que é distribuído indiscriminadamente pelas grávidas/casais....
Perante o que tenho presenciado, questiono ( entre muitas outras coisas)🤔.... 
Onde fica nisto tudo, o compromisso assumido pela equipa de profissionais? na "boa vontade"? nas "palavras soltas"? ou na dependência de quem nos calha no dia?Onde fica a informação que deve ser prestada antes de consentirmos qualquer intervenção em saúde?

Enfim...uma "salgalhada" que me parece, tudo, menos um consentimento informado, que é o que deveria ser.
O Plano de parto é uma declaração expressa escrita do casal, depois da obtenção de informação isenta e fidedigna.
Um compromisso que deve ser assumido de forma honesta e limpa por TODA a equipa de saúde onde acontecerá o nascimento.
Para MIM, esta forma leviana de tratar do Plano de Parto e Nascimento dos casais, é mais uma forma de ocultar as tão enraizadas, relações de poder e desigualdades de género, no atendimento ao parto hospitalar.
URGE resgatar e reconhecer a SINGULARIDADE de cada mulher e cada parto e restituir às mulheres o PROTAGONISMO dos seus partos e o PODER sobre os seus corpos....não urge implementar de forma, diria até irresponsável, um Plano de Parto hospitalar a todo custo e  publicidade. 

Por isso, em mensagem privada ou pública a minha orientação é....
-Façam o longo ( mas prazeroso e empoderador ) caminho, até à elaboração do vosso Plano de Parto, que na prática significa, procurem informação fidedigna, cerquem-se de pessoas e/ou profissionais que não vos condicionem mas sim, empoderem. 
- Redijam,  o vosso Plano de Parto e Nascimento. Coloquem o que querem e o que não querem, por escrito.
O Plano de Parto pode ser uma salvaguarda para a mulher que, em um momento de fragilidade, não consegue manifestar claramente as suas preferências. 
- Apresentem o vosso Plano de Parto a várias instituições. Tirem as vossas conclusões perante o que ouvirem do outro lado.Se estiverem atentos, irão perceber a falácia de alguns discursos e filosofias.
- Não se fiem e duvidem das boas intenções de quem vos apresenta o discurso de, "no dia discutimos o seu Plano",  "basta falar, não precisa escrever", ou "não aceitamos isso" (destes últimos fujam mesmo, porque vos garanto que nem tão pouco sabem o que é um consentimento informado, o que por si só já é muito grave, quando falamos de cuidados de saúde).

Por fim e mesmo para aqueles locais, cujo, já exista um documento tipo pré elaborado, apresentem o VOSSO Plano de Parto, o tal...pessoal, único e singular.
E...discutam-no com as equipas!
Assumam a vossa responsabilidade!e os vosso direitos!

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Documentos (que talvez possam ser) úteis 

Consentimento Informado em Obstetrícia:
https://bionascimento.com/consentimento-informado-em-obstetricia/

Reflexão para a construção do Plano de Parto:
http://www.associacaogravidezeparto.pt/wp-content/uploads/2016/08/Reflex%C3%A3o-para-a-constru%C3%A7%C3%A3o-do-plano-de-parto-introducao.pdf


Créditos de fotografia: @ KarineMenezes_fotografia




domingo, 28 de abril de 2019

Há sempre uma razão, mesmo que não a consigamos perceber.

"Posicionamentos do bebé intrauterinos e parto podem causar diversas disfunções cranianas, com repercussões inimagináveis”.
 Cruzei-me com esta frase, numa de muitas formações na área da saúde do recém nascido e o pós nascimento, já há algum tempo (anos). Foi mencionada no âmbito da Osteopatia Pediátrica, mas naquela altura, apesar do sentido lógico, não refleti e interiorizei o verdadeiro significado dela. 
Se tal tivesse acontecido, teria poupado o meu filho (e nós pais) de uma autêntica “tortura”. 
Mas é bem verdade, que, nem sempre vemos as coisas para as quais estamos a olhar, e que quando é para acontecer, a vida encarrega-se de nos obriga-nos a ver.
Retomando, o que vos quero transmitir e passando a explicar um pouco a anatomia, de modo que, que qualquer mãe/pai, que leia o meu post perceba e saiba sobre o que estou a escrever.
O corpo humano é um todo, uma unidade projetada para funcionar em perfeito equilíbrio. Todas as estruturas estão inter-relacionadas, e as disfunções em uma estrutura podem influenciar todas as outras. 
Pensando num recém nascido e na estrutura craniana…

No momento do nascimento, os ossos que formam o crânio ainda não estão totalmente ossificados nem soldados entre si, deixando em alguns sectores da cabeça do bebé, espaços ocupados por uma membrana cartilagínea flexível, as fontanelas (popularmente de denominadas, "moleirinhas").
Esses espaços, permitem que os ossos cranianos se possam movimentar e que a cabeça seja moldável e possa ser comprimida ao longo da sua passagem pelo canal do parto. 
Até ao segundo ano de idade as fontanelas do crânio do bebé “fecham-se”, pois o espaço intermediário ossifica-se.
É importante, e expectável que este "fechar" das fontanelas e ossificação dos ossos cranianos ocorra de forma simétrica e harmoniosa.
Ainda relativamente à estrutura craniana...
O nervo vago é o maior nervo craniano e tem origem na parte de trás do bulbo raquidiano, uma estrutura cerebral que liga o cérebro com a medula espinal, e sai do crânio por uma abertura chamada de forame jugular, descendo pelo pescoço e tórax até terminar no estômago. Ao longo do seu trajeto, dá origem a vários ramos que inervam diversos órgãos cervicais, torácicos e abdominais, com funções sensitivas e motoras.
O forame jugular é uma abertura na base do crânio que permite a passagem dos nervos cranianos, vago e da veia jugular interna (principal via de drenagem sanguínea do cérebro).
O mau posicionamento do bebé nas semanas que antecedem o parto, o não encaixe correto da sua cabeça na pélvis da mãe, pode originar tensões e modificações da forma do crânio, que podem produzir congestão do forame jugular e com isto do nervo vago, causando disfunções viscerais, tais como cólicas, obstipação, refluxo, etc. Também para além do mau posicionamento intra uterino, os próprios procedimentos obstétricos usados durante o parto, poderão afetar estes nervos. São exemplos, a tração feita (com as mãos dos profissionais) na cabeça do bebé (tantas vezes desnecessárias) no período expulsivo de um parto vaginal, o uso de instrumentos (fórceps) e outras manobras como a de Kristller (empurrar o fundo do útero com o antebraço).
Para além das disfunções viscerais, muitas outras poderão surgir, por exemplo, as vertebrais, que induzem um desequilíbrio ortossimpático e ainda alterações do diafragma com consequente pressão intra abdominal. 
Em suma o crânio de um recém nascido, pelas razões acima mencionadas é um autêntico puzlle, no que toca a possíveis disfunções.
Sabia disto já há algum tempo, e tenho inúmeras mães que já recorrem por rotina à Osteopatia, para uma avaliação da estrutura craniana do seu bebé, perante quadros de cólicas, refluxos e afins, pelo que há muito respeito e admiro a intervenção destes profissionais, mais que não fosse pelo feedback (muito) positivo dado pelos pais.
O que eu não sabia era que, as disfunções cranianas poderiam afetar também o sono. Hoje, confesso, sinto-me uma totó ao escrever e pensar nesta última frase.
Como é que não vi o que estava à minha frente!?
Como é que não percebi os sinais que o meu filho me deu durante quase 18 meses?!
Muitos de vós não saberão, que o meu filho mais novo, não dorme, desde o dia que nasceu, mais do que 2 horas seguidas, e que os despertares, especificamente os noturnos, sempre foram acompanhados de choro.
No início atribui os despertares à necessidade de mamar em livre demanda.
Depois achamos que os despertares chorosos, seria uma necessidade como tantas outras, de contato e segurança (dorme comigo/connosco desde o dia em que nasceu).
O tempo foi passando, e passamos a identificar os despertares noturnos como algo da personalidade dele. Acrescido o facto de sabermos que o sono dos bebés é muito inconstante até aos 2 anos, fomos gerindo de forma “natural” (ou o mais “natural” possível) os despertares e o choro associado a eles.
Se até aos 14 meses ia sendo mais ou menos "fácil", sossegar o choro, com a mama, a partir desta altura e com o desmame noturno (decidido por ele), os despertares passaram a ser tormentosos.
A procura por uma posição ideal, que fazia com que não conseguisse estar quieto por mais do que minutos, tornou-se constante, e o choro tornou-se inconsolável, que passou a demorar, na maior parte das vezes, muito tempo (algumas vezes, 3/4 horas) até cessar.
Nestas alturas de choro, o Kiko só tolerava o nosso colo, mas de pé, encostado ao nosso ombro. E o pouco que dormia, era de joelhos, barriga para baixo, todo curvado e com a cabeça encostada ou à cabeceira da cama ou à grade lateral de proteção. Na nossa cabeça, isto era o “jeito dele”.
E assim alternávamos horas e noites, entre muitos despertares, que eram sossegados ora com o colo do pai ora com  o meu.
De dia tinha um Kiko bem disposto, brincalhão e muito pouco chorão, de noite um bebé tão diferente.
Tentamos um pouco de tudo o que possam imaginar, desde deitar muito cedo, deitar mais tarde, rotinas sempre iguais, nenhuma estimulação a partir do fim da tarde, leitura, banho, sem banho, mudança de quarto, óleos essenciais, etc, etc, etc.
Não preciso, nem quero explicar a ninguém o que a privação de sono de uma forma contínua faz,  à nossa cabeça, ao nosso estado emocional e à saúde física em geral. Quem por lá já passou conhece bem os efeitos, quem não passou, não precisa, sequer imaginar.
A determinada altura questionámo-nos se, o nosso estado emocional de cansaço extremo, não estaria a condicionar ainda mais o sono agitado do nosso bebé. E acredito que sim. As noites eram desde há 18 meses, a altura do dia, mais temida. Porque nos deitávamos a pensar, que nos íamos levantar vezes sem conta. Porque, por mais calma e paciência que quiséssemos ter, acreditamos que nem sempre despertávamos com a melhor energia e o tranquilizávamos como ele precisaria. O nosso estado emocional e as nossas energias não seriam de todo, as mais "cor de rosa".
Numa noite de desespero, o meu marido, desabafou em tom igualmente desesperado, “isto não pode ser normal, temos que levá-lo a um Pediatra”. 
Isto soou na minha cabeça como um alerta vermelho. Pediatra= medicação. 
Não sei, de todo, se assim é ou não, mas foi o que me ocorreu, naquele momento.
Numa das consultas de rotina no hospital, com o Pediatra (por causa das infeções urinárias que fez em bebé) já havia abordado a questão de ele não dormir de noite, tendo-nos sido  sugerido, retirar as sestas do dia. Como não nos fez qualquer sentido e  jamais o iríamos fazer, decidimos não abordar o assunto novamente.
Quando naquela madrugada, foi pronunciado o nome “Pediatra”, o que me ocorreu foi mesmo a prescrição de medicação indutora de sono. Lembrei todas as crianças que conheço, que foram e/ou estão medicadas e, sem querer julgar ninguém, não era essa a solução que pretendíamos. 

Naquele momento, decidi que tinha que pedir ajuda. 
Pensei numa terapeuta de sono e na minha terapeuta Osteopata.Acabei por começar pela segunda, uma pessoa em quem confio a 200% e que pela sensatez que lhe é devida, saberia como me ajuda/aconselhar/apoiar.
Como tal, no dia seguinte, contatei-a e pedi-lhe ajuda. Já havíamos falado do sono, e o quão difíceis eram as noites, no início de vida do Kiko, mas, deste agravamento dos últimos meses, não.
Agendamos uma conversa. A primeira pergunta que ela me fez, “ tens ideia de como foi a extração do Kiko,  durante a cesariana?” fez-me cair num buraco…
Como é que eu nunca me lembrei que a tração feita na cabeça do Kiko,  poderia ter causado qualquer tipo de disfunção?
Eu, que sabia, que a extração durante a cesariana, havia sido muito difícil (são todas, bem sei. Ao contrário do que  a maioria pensa, a extração do bebé nas cesarianas é algo muito "violento" e manipulado"), mas a do Kiko, foi especialmente "forçada", tendo sido ponderado, inclusive, o uso de ventosa (sim, uma cesariana pode ter ventosa e até forceps, para auxiliar a extração do bebé).
Segundo ela, e são palavras minhas, porque eu nada sei de fisioterapia, osteopatia e afins,  e como tal deixo os nomes técnicos para quem sabe, o Kiko apresenta um desalinhamento dos ossos cranianos e  uma lesão/inflamação a nível cervical, que lhe causa rigidez e desconforto. Foi detetado uma flexão anómala da planta de um dos pés  e a perna desse lado ligeiramente mais arqueada que  a outra.
Os despertares noturnos ( e muitos vezes diurnos) associados ao choro, tinham afinal uma razão física e patológica. O choro tinha por base o desconforto que ele sentia.
Quando dormia curvado a pressionar a cabeça contra a cabeceira ou grade lateral, era um reflexo instintivo de aliviar a pressão, fosse craniana ou cervical e o desconforto associado a essa pressão. 
Escusado será dizer, que desde a primeira sessão de Osteopatia, que ocorreu há precisamente 18 dias, o Kiko já consegue dormir 4/5 horas seguidas. Mantem a procura pela pressão na cabeça, mas algumas das vezes consegue dormir sem sequer se mexer e apesar de despertares, estes acontecem, na maior parte das vezes, sem choros. Ajeita-se e volta a adormecer.
Confesso que esta realidade me alertou para outras responsabilidades, profissionais e pessoais e acredito que exista todo um conhecimento desconhecido da maioria dos profissionais de Obstetrícia e Pediatria e consequentemente de mães/pais/famílias. 
Estou, consciente (e só agora, porque me tocou e porque entretanto já li muita coisa), de que a cabeça do bebé é "um mundo", que devemos, cuidar, observar e vigiar com muita cautela e atenção e que, à semelhança de outros países, seria uma mais valia, todos os bebés serem observados/vigiados, não só por Pediatria, mas também por Osteopatia.
Por mais controverso que seja este tema, esta é, a minha certeza neste momento.

Fonte das fotos: Google.

terça-feira, 9 de abril de 2019

A escolha do local de parto é um direito inviolável da mulher/casal.

“Considerando a nova consciencialização dos casais, face à sua participação mais ativa e personalizada no processo de vivência da gravidez, trabalho de parto e parto, assente nos célebres Direitos Humanos, emergiu uma derivação nesta área, Direitos Humanos da Grávida e Direitos Humanos Universais no Nascimento, assentes em 6 pressupostos básicos:
-Direito ao consentimento informado;
-Direito à recusa do tratamento médico;
-Direito à saúde;
-Direito ao tratamento igualitário;
-Direito à privacidade;
-Direito à vida.
Em Portugal, estas normas internacionais são aplicadas no território nacional por imperativo constitucional dos tratados assinados da União Europeia.
O direito à escolha do local de nascimento (onde se inclui obviamente a escolha por um parto domiciliar)  faz parte do leque de direitos que integra a esfera jurídica das mulheres grávidas sendo uma das vertentes do direito ao respeito pela vida privada e familiar. O Art. 8º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem consagra-o, e o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos reconheceu que o direito à tomada de decisão sobre o tornar-se pai ou mãe, inclui o direito de escolha sobre a forma como se tornar pai ou mãe e que as opções para o parto/nascimento fazem parte incontestavelmente da privacidade de cada um.
Este direito à privacidade impõe que o sistema legal e que o sistema de saúde apoiem as escolhas de Saúde Reprodutiva sem impor restrições ou limitações baseadas nos julgamentos morais ou preferências de terceiros”.(Ordem dos Enfermeiros).

"São direitos da parturiente:
- Direito a um parto seguro, assistido e humanizado
- Direito a decidir sobre o parto
- Direito ao alívio da dor
- Direito ao acompanhamento
- Direito à livre movimentação
- Direito à amamentação e ao aconchego do bebé
- Direito à informação e ao consentimento informado
- Direito à privacidade e à confidencialidade
- Direito à mínima interferência
- Direito à responsabilização" (Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, 2016).

“O progresso cultural e a crescente informação das cidadãs parturientes têm gerado um fenómeno de orientação natural de procura para os locais que garantem segurança total às parturientes mais bem informadas.
 O SNS e o Ministério da Saúde, que por ele responde, têm obrigação de garantir às portuguesas, por livre escolha, o local onde entendam que a sua criança nasça nas melhores condições de segurança técnica. (Despacho nº7495/2006, 2ª Série).

No sentido de (…)”alterar o paradigma da oferta de cuidados de saúde reorganizando o sistema em torno do cidadão, das suas necessidades e expetativas, assegurando a equidade no acesso, a qualidade dos serviços e a prestação atempada e humanizada dos cuidados, sem perder de vista a sua sustentabilidade.(…)
 O poder do cidadão só será efetivo se este tiver acesso a informação relevante para a sua tomada de decisão e se o Livre Acesso e Circulação (LAC), nos diversos níveis do sistema, ocorrer de forma transparente e responsável, com a efetiva possibilidade de o utente poder optar pela instituição do SNS onde pretende ser assistido
No SNS, o acesso aos cuidados hospitalares programados por parte dos utentes deve ser efetuado através de referenciação a partir dos cuidados de saúde primários, e, neste âmbito, encontra -se implementado, desde 2008, um sistema de referenciação e gestão do acesso à primeira consulta de especialidade hospitalar nas instituições do SNS, designado por Programa Consulta a Tempo e Horas (CTH), que tem como objetivo harmonizar os procedimentos inerentes à gestão do acesso à primeira consulta de especialidade hospitalar referenciada pelos cuidados de saúde primários”.(Despacho n.º 5911-B/2016)

"A filosofia dos cuidados da Enfª Especialista em Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia, é a assistência centrada na mulher, dando prioridade aos desejos e necessidade da mulher e enfantiza a importância de escolhas informadas em termos das opções disponíveis durante a gravidez, parto e período pós natal, tais como local de nascimento e quem lhes presta assistência.
No cuidado centrado na mulher, o EESMO/Parteiro assume o papel de seu defensor, permitindo-lhe tomar as suas decisões, apoiando-a nas suas escolhas informadas, incentivando e oferecendo um leque de informação imparcial, que abranja as suas crenças e valores, isenta de julgamentos”. (Ordem dos Enfermeiros)

Em suma, e relembro que, só aqui ☝são utilizadas palavras minhas , escolher o local do parto e o local onde ocorrerão as consultas hospitalares de qualquer especialidade médica, no caso as de Obstetrícia são direitos humanos universais e direitos dos utentes do SNS.
O papel de TODOS os EESMO/Parteiro é oferecer TODA a informação possível, baseada nas evidências científicas e nas recomendações das entidade reguladoras de boas práticas, que permita aos casais escolher o local que melhor se adeque às suas preferências/expectativas/desejos e apoiá-los nas suas decisões.
O EESMO/Parteiro deverá ser, é e será o defensor dos interesses das suas mulheres/casais e nunca o defensor de outros interesses, sejam eles quais forem (corporativismos, incluídos).

Links de acesso à legislação que protege as mulheres/casais na escolha, tanto do local de parto como o acesso a consultas de especialidade em qualquer hospital para além do de proximidade geográfica.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Esta sou eu! Esta é a EESMO, que sou!


Hoje venho falar-vos um pouco de mim e do meu papel enquanto profissional de saúde.
Faço-o porque, como muitos de vocês sabem, retomei a minha atividade no último trimestre de 2018, após uma pausa de cerca de ano e meio, para viver uma gravidez e maternidade. 
Faço-o, porque desde esse regresso, tenho sentido esta necessidade. 
Sou Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia/Parteira (que abreviarei ao longo de texto, como EESMO) desde 2009 e desde 2012 que uma das minhas áreas de atuação é o acompanhamento das grávidas/casais nos Cursos de Preparação para o Nascimento e Parentalidade. E é precisamente nesta área, que tenho percebido da parte da “população”, uma “preocupação” e “interesse” nunca antes sentido. Da parte de quem NADA sabe, conhece ou se preocupa em conhecer, vão chegando “opiniões” e “adjetivos” sobre o meu trabalho. 
Quem me conhece, sabe que atualmente (nem sempre assim foi) a opinião dos outros, pouco (ou nada) me interessa, no entanto, e porque “opiniões” infundadas, desinfomação, ideias erradas ou pré concebidas, podem e estão a interferir nas escolhas de outros, acho que chegou o momento de esclarecer qual é o meu papel de EESMO/Parteira junto da mulher/casal durante a gravidez.
Irei tentar resumir e simplificar a imensidão do papel e competências de uma EESMO, prevendo desde já, que não será uma tarefa fácil.😜

De acordo com o Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros, o Enfermeiro Especialista é o enfermeiro habilitado com um curso de especialização em enfermagem, a quem foi atribuído um título profissional que lhe reconhece competência científica, técnica e humana para prestar, além de cuidados de enfermagem gerais, cuidados de enfermagem especializados na área da sua especialidade.
Na área da Saúde Materna, as competências do Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia, são as seguintes:
    a) Cuida a mulher inserida na família e comunidade no âmbito do planeamento familiar e durante o período pré-concecional;
    b) Cuida a mulher inserida na família e comunidade durante o período pré-natal;
    c) Cuida a mulher inserida na família e comunidade durante o trabalho de parto;
    d) Cuida a mulher inserida na família e comunidade durante o período pós-natal;
    e) Cuida a mulher inserida na família e comunidade durante o período do climatério;
    f) Cuida a mulher inserida na família e comunidade a vivenciar processos de saúde/doença ginecológica;
Dentro da competência que define o meu cuidar atualmente à população, “Cuida a mulher inserida na família e comunidade durante o período pré-natal, de forma a potenciar a sua saúde, a detetar e a tratar precocemente complicações, promovendo o bem-estar materno-fetal”, o EESMO, entre outras:
     - Diagnostica e monitoriza a gravidez;
     - Identifica e monitoriza desvios à gravidez fisiológica;
    -Concebe, planeia, coordena, supervisiona, implementa e avalia programas de preparação para o parto e parentalidade responsável;
     -Concebe, planeia, coordena, supervisiona, implementa e avalia programas, projetos e intervenções de promoção do aleitamento materno;
     -“Promove a decisão esclarecida no âmbito da saúde pré-natal, facultando a informação à grávida sobre recursos disponíveis na comunidade;
      - Promove o Plano de Parto e apoia a mulher na decisão” 
(Ordem dos Enfermeiros,2010)

Segundo o Código Deontológico dos Enfermeiros, o EESMO deve:
- Respeitar, defender e promover o direito da pessoa ao consentimento informado;
- Atender com responsabilidade e cuidado a todo o pedido de informação ou explicação feito pelo indivíduo em matéria de cuidados de enfermagem; 
- Informar sobre os recursos a que a pessoa pode ter acesso, bem como sobre a maneira de os obter.(pontos b, c e d, artigo 84º). 

No se que refere aos direitos dos utentes:
- “O doente tem direito ao respeito pelas suas convicções culturais, filosóficas e religiosas”
- “O doente tem direito a receber os cuidados apropriados ao seu estado de saúde,”
- “O doente tem direito a ser informado acerca dos serviços de saúde existentes, “

Em suma, do ponto de vista ético, o código deontológico dos enfermeiros estabelece como dever dos EEESMO de zelar pelo respeito dos seus utentes, através da construção/ respeito pelo consentimento esclarecido e informado (plano de nascimento, por exemplo), e através da prestação de cuidados com toda a excelência profissional possível (implica atualização profissional, adequação dos meios e cuidados aplicados às situações com que se depara, entre outros)

"Todas as mulheres têm direito à assistência de que necessitam, individualmente, para um parto e nascimentos saudáveis. A assistência oferecida à mulher durante a gravidez e parto interfere diretamente com o seu direito à integridade física, à autodeterminação e à privacidade.
A mulher não perde os seus direitos humanos básicos por se encontrar grávida, pelo que estes não podem ser comprometidos ou violados durante o processo de nascimento.
O direito à privacidade inclui o direito de escolha sobre as opções do nascimento, reconhecendo que a tomada de decisão sobre o parto/nascimento constitui uma questão de justiça na Saúde Reprodutiva da Mulher.
O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos defende que “o direito à tomada de decisão sobre o tornar-se pai ou mãe, inclui o direito de escolha sobre a forma como se tornar pai ou mãe” e que “as opções para o parto/nascimento fazem parte incontestavelmente da privacidade de cada um."
(Mesa de Colégio da Especialidade de Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica, 2014).

A existência de uma maior satisfação da Mulher com a sua experiência de parto está efetivamente associada ao tipo de assistência que lhe é prestada Por isso as mulheres/casais procuram cada vez mais locais e profissionais com práticas adequadas às suas necessidades e que respeitem, o direito à sua autonomia e opção de escolha, relativamente ao parto.
É isto que defendo, promovo e me é pedido pela tutela.
O acompanhamento da mulher/casal grávido efetuado nos Cursos de Preparação para o Parto e Parentalidade é nada mais, nada menos, do que, promover, defender e respeitar o direito à autonomia e opção de escolha relativamente ao parto, informar sobre os recursos que a mulher/casal pode ter acesso e como os poderá obter.

Não se pretende promover o parto natural e "demonizar" o parto medicalizado ( as opções e decisões da mulher/casal no nascimento, vão muito para além desta “estúpida” dicotomia). Não se ensina ninguém como se comportar “adequadamente” num bloco de partos. Não se ensina grávidas a respirar. Não se ensina/treina ninguém “a puxar”. E, não se “ faz a cabeça de ninguém”.
O modelo de assistência prestado pela EEESMO/Parteira, atende às dimensões biopsicossociais da grávida, considerando a Mulher no seu todo, incluindo os seus sentimentos e expectativas (muito longe do modelo paternalista, em que a decisão é tomada pelo profissional sem levar em conta dos desejos, crenças ou opiniões da grávida).
Por isso, nos meus Cursos de Preparação para o Parto e Parentalidade, promovem-se opções, opções baseadas nas necessidades da mulher/casal e essas opções parece muitas vezes incomodar terceiros. Estranho é, que incomode tanto, precisamente, quem nunca, por opção pessoal ou circunstâncias de vida, teve acesso a opções no parto/nascimento.
As mulheres têm direito às suas escolhas sem restrições ou limitações baseadas em julgamentos morais, crenças ou mesmo preferências de terceiros.

Falta tanto às mulheres…
Falta acreditarem nelas, acima de tudo. Acreditarem que aquele dia as marcará para todo o sempre. Falta acreditar que as rotinas /práticas hospitalares podem não servir (e não servem na sua maioria) as suas necessidades pessoais.
Falta-lhe amor próprio, uma auto estima saudável, que as impeça de seguir opiniões ou sujeitarem-se a pressões de terceiros. Esta semana ouvia mais um desabafo, que já vai sendo um clichê por estes lados, “o que me impede de fazer escolhas no nascimento, é muita coisa, mas sem dúvida, que uma delas é a pressão das que me rodeiam, das que me criticam ou atacam com a frase “tens a mania que és diferente das outras”.(Não sei se isto é tão grave aos olhos dos outros, quanto o é para mim, mas juro-vos que me entristece esta falta de empatia, de união, compaixão entre mulheres).
Falta respeito e autoridade sobre o seu corpo ao invés de permitirem a autoridade e abuso do profissional de saúde, sobre o mesmo.
Falta impor a sua vontade à vontade de outros, sejam eles, profissionais, companheiros, familiares ou amigos.
Falta coragem de saírem da sua zona de conforto, de assumirem o papel de protagonistas da sua vida.

Falta “voz” às mulheres….e falta também quem apoie, perceba e promova essa “voz”.

O meu papel enquanto EESMO foi, é, e será mostrar que essa voz existe, está acessível a todas e caso queiram “gritar”, estarei cá para lhes dizer que “está tudo bem” e que as apoiarei nas decisões. 
Caso decidam "não gritar", estarei cá,  igualmente com um “está tudo bem” e eu “estarei sempre aqui para te apoiar”.

Esta sou eu! Esta é a EESMO, que sou!
Tudo o que ouvirem ao contrário, é mentira! Mas nada melhor do que virem comprovar!☺

domingo, 6 de janeiro de 2019


Cada parto é um parto!
Cada nascimento é único, porque único é também o bebé e a mulher.
Mas, os nascimentos há muito que se tornaram  similares, como se de uma linha de montagem se tratasse.
Uma tentativa de anular a individualidade do processo e dos seus intervenientes.
Regras, protocolos, parametrização, contabilização, intervenção....Tudo foi "criado" de modo a permitir, "controlar" o momento e os intervenientes,  tornando-o o menos moroso, menos trabalhoso e menos exigente, do ponto de vista de quem cuida (é mais fácil  "olhar" para a mulher, como um "ser adoentado", frágil/debilitado, que necessita de orientações e intervenções externas, em que EU, profissional de saúde assumo o papel de "imprescindível", do que um ser capaz e poderoso, que de MIM, precisa apenas que a apoie no que ela quiser e decidir e que segure/ampare o seu bebé).
Começamos com um (estúpido) rei, que decidiu mandar deitar a sua amante, para que atrás de uma cortina, pudesse assistir ao nascimento do seu filho e terminamos no cenário que tão bem, todos, conhecemos.
Mulher deitada durante todo o trabalho de parto e parto, em jejum, "ligada" a um suposto imprescindível soro,  sujeita à aceleração de todo o processo através de medicação ( porque tempo e paciência é coisa de "naturalistas"),  medicação essa que pelos seus efeitos secundários possíveis, acarreta uma vigilância contínua, logo consequentemente temos uma mulher "ligada" também a um registo cardiotocográfico. A medicação acarreta uma dor mais intensa e duradoura, dor essa aliviada só com recurso à epidural, como se não existissem outras formas de promover esse alivio.
Partos permitidos só com a mulher em posição de deitada, orientações de quando e como "puxar", "cortes" necessários em quase todas as mulheres, luz nas salas de parto, barulhos, muitas vozes,  ordens, algumas "acusações", abusos.
Cordão umbilical cortado de imediato,  bebé afastado da mãe, após um pele a pele fugaz. Medido, pesado, vacinado, vestido e só depois, regressa, onde NUNCA devia ainda ter saído, o colo da mãe.
Pai, esse ser que tanto "empecilha", mas, que em certas alturas assume o papel central dos cuidados (estranho, diria eu),  quando assistimos à preocupação dos profissionais, relativamente às suas necessidades, nomeadamente de dormir "tranquilo" em sua casa, ir dar uma volta para arejar, ou mesmo para ingerir uma refeição.
Pais, asseguro-vos que, terão tempo para arejar, comer e dormir!
Não abandonem, a vossa mulher e o vosso filho, e isso inclui também a noite. Diz a lei, que a vossa mulher tem direito a um acompanhante durante TODO o processo de trabalho de parto.TODO, é TODO, e inclui noite, se assim tiver que ser.
Não a abandonem também à entrada de um bloco operatório.Também por lei está assegurada a vossa presença, DENTRO do bloco operatório, ao lado do seu rosto, se houver necessidade de recorrer a uma cesariana. E se vos obrigarem a abandonar, RECLAMEM dessa violação de direitos.

Mas, apesar desta realidade que nos habituamos (ou não) a assistir, vamos vivendo/ sabendo/ assistindo a outras formas de encararmos um nascimento.Um cenário tão longínquo daquele habitual que vos descrevi.

Profissionais a apoiar e a RESPEITAR a individualidade de cada mulher/casal/bebé.
Mulheres em trabalho de parto, LIVRES, de jejum, de soros, de registo cardiotocográfico contínuo, de pressões de tempo e falta de paciência.
Partos respeitados no tempo e na fisiologia.
Ambiente escurecido. Técnicas promotoras de alívio da dor (como calor, água, massagens etc)
Parto na posição escolhida pela MULHER, Enfermeiras de joelhos, a "apanhar" bebé. ( e já agora vómito 😉)
Bebé entregue à mãe, pele a pele looongo, sem tempo, sem intervenções e manipulações, e mais tarde entregue ao colo do pai, para também ele(s) usufruir de um delicioso pele a pele.
Pai, esse ser tão maravilhoso e crucial neste processo. Pai, o promotor de ocitocina materna, o pilar, o apoio, o suporte em todos os momentos.
Pai que NÃO é acompanhante, mas sim PAI!
A Natália, DONA deste parto e deste momento, escreveu que, para viver este momento, teria pelos menos, 6 filhos....tão díspar, da frase que mais ouço, "não quero mais nenhum, não consigo voltar a passar por isto"(mesmo que depois com o tempo, o consigam).
Esta mulher/família, tornou as suas imagens e o seu momento, público, porque pretende que a sua realidade chegue até muitas mulheres.
Pretende tocar muitos ❤ e transmitir a mensagem de que o seu Parto foi lindo, respeitado e muito consciente.E que qualquer mulher tem direito a um Parto assim.E se não for assim, tem direito a "tentar", a usufruir deste cuidado.Tem DIREITO, seja qual for o desfecho, a um PARTO POSITIVO.
E se a sua partilha ajudar a mudar uma família, já terá valido a pena.

Eu!!...eu subscrevo cada palavra e pretendo exatamente o mesmo.
À Natália agradeço a generosidade da sua partilha e do seu ativismo em prol de uma experiência avassaladoramente positiva❤

Que cada imagem desta "montagem", vos faça refletir (sobre o vosso parto ou sobre o de outras).
Que vos permita, para além do despertar  de emoções, perceber o que cada imagem representa.
Isto não é ficção, é a realidade, felizmente, de muitas mulheres/casais, que escolheram em consciência, um local que nos acolhe, respeita e cuida como TODAS NÓS deveríamos ser cuidadas.

"Nós somos todas, UMA!" (Natália Colin)



(Nascimento ocorrido no Centro Hospitalar Póvoa de Varzim/Vila do Conde)


terça-feira, 1 de maio de 2018

BLW...a (nossa) melhor opção!


Conforme prometido cá estou eu para vos falar um pouco do método Baby Led Weaning (BLW) e o porquê da nossa opção por este método, para a introdução da diversificação alimentar do Francisco.
Depois de partilhar nas redes sociais, a primeira alimentação do Francisco, os pedidos de informação e ajuda foram muitos. Perante tantas solicitações, e quando percebi que não conseguia estabelecer uma ajuda individual, pensei que talvez este texto que agora vos escrevo ajudasse a esclarecer a maior parte das dúvidas (que são as dúvidas mais comuns)
Antes de vos falar especificamente do método, quero-vos dizer, que não tenho qualquer formação profissional nesta área. A minha formação profissional quanto á alimentação infantil cinge-se à amamentação. O que sei e que partilharei aqui com vocês, resulta de muita pesquisa, pesquisa essa que fiz para meu uso pessoal. 
Não faço parte dos profissionais de saúde que exercem competências para as quais não têm habilitações. Não faltam por aí (e na minha área então é escandaloso) pseudo instrutores de massagem infantil, pseudo consultoras em amamentação, pseudo professores de pilates, os pseudo consultores de babywearing e por aí adiante.
Como tal, e porque abomino este comportamento, prezo e respeito a formação e as competências de cada um, que fique muito claro e bem esclarecido que o que aqui escreverei nada mais são do que as minhas notas de pesquisa sobre o tema.
A minha experiência com o meu primeiro filho há 12 anos atrás, não foi a melhor. Iniciei a diversificação alimentar aos 4 meses, por indicação da profissional de saúde que o acompanhava (Pediatra), pelo método tradicional, ou seja, através de purés de legumes (sopa) e papas, com a “certeza” que esta seria a única forma, dada a incapacidade de o bebé comer alimentos sólidos, dado o risco de engasgamento, e pela impossibilidade de mastigar sem dentes (quanta ignorância minha!!)
Nunca questionei, nunca procurei informação sobre o tema. O profissional recomendou, “toda a gente” à minha volta assim fazia, eu assim fiz. Hoje sou o oposto, sou muito céptica em relação a tudo, procuro informação de tudo e nunca fico pela recomendação de “quem sabe”, mas na altura, estava longe de ser uma mãe consciente.
Esta minha opção, acredito, conduziu aquilo que o meu filho “é” hoje, em termos alimentares.
A facilidade de engolir purés, as texturas homogéneas, os sabores dos alimentos não diferenciados, conduziu no Diogo, a um desinteresse desde sempre pela comida e pelas refeições, que se mantém até hoje. Nunca comeu fruta crua e sopa sem ser triturada, legumes no prato, saladas etc. Não é apreciador se quer, de nada que exija maior poder de mastigação. Este facto gerou durante muito tempo, imensa ansiedade e confesso que durante os primeiros anos de vida, a hora das refeições, era para nós família, um “calvário” (só há poucos anos aprendi a relaxar, e ainda não o consigo totalmente)
Há uns anos atrás, uma amiga e mãe que havia acompanhado na gravidez e parto, comentou comigo que a filha tinha iniciado esta etapa de introdução de alimentos através do BLW.
Sendo alguém que admirava muito (mantenho a admiração), cuja filosofia de vida se destaca por escolhas informadas, pela prática de uma parentalidade consciente e respeito total pelo bebé/filha, fiquei curiosa e procurei saber mais sobre o tema.
Foi “amor à primeira vista”. Bastou perceber que o método baseia-se em duas premissas, que são TUDO o que defendia e defendo, CONFIANÇA e RESPEITO pelo bebé.

Claro que o recomendei a outras mães/mulheres que acompanhei entretanto, e cuja filosofia de vida me parecia encaixar no método. Isso deu-me a possibilidade e o privilégio de acompanhar os seus filhos e o sucesso da alimentação dos mesmos.
Obviamente que quando o Universo me surpreendeu com a gravidez do Francisco, soube imediatamente que esta seria (também) uma área em que podia ter a oportunidade de refazer a história e fazer opções conscientemente informadas. Duas certezas e dois objetivos.
A introdução da diversificação alimentar aconteceria após os 6 meses de aleitamento materno exclusivo e seria através do método BLW.

E assim foi. Iniciamos dois dias depois do Francisco completar os seus 6 meses.

E aproveito para relembrar que, a imensa literatura que corrobora as vantagens do aleitamento materno exclusivo até aos seis e a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) para esse prolongamento, em 2002, acarretou novas considerações em relação à forma como introduzimos os sólidos na alimentação das crianças. Aos seis meses a função renal  e a capacidade digestivas da criança são mais maduras e há uma evolução considerável do desenvolvimento da manipulação e da oralidade que permite, nesta fase, a manipulação e mastigação de sólidos.
Em contrapartida, foi e é dada pouca atenção à forma como devemos recomendar a introdução de sólidos agora que ela começa mais tarde.
Como tal considero primordial os diversos profissionais de saúde que acompanham as famílias reverem a sua atuação e as suas recomendações.

O que é então o Baby- Led Weaning (BLW)?

O BLW é uma abordagem muito específica de introdução da alimentação complementar descrita em 2008, por Gill Rapley.
É um modelo, que ao contrário do método tradicional, NÃO prevê oferecer comida passivamente ao bebê. Prevê sim, que a comida lhe seja oferecida, num formato apropriado e ele escolha o que come. Os alimentos não lhe são colocados na boca nem nas mãos, e as sopas em puré só entram no BLW quando a criança tiver a capacidade de manusear a colher e dessa forma conseguir alimentar-se de forma autónoma.

Mas o BLW é muito mais do que oferecer alimentos em pedaços ao bebé. É uma filosofia de vida. Uma filosofia que assenta na premissa do respeito e confiança pela autonomia do bebé em decidir quanto, como e com que ritmo irá comer, sendo que a alimentação é baseada nos seus instintos inatos e na sua capacidade de autorregulação (a noção que o bebé tem da sua saciedade).
As refeições são feitas em família, com a partilha dos mesmos alimentos, o que nos leva, enquanto família a repensar a alimentação e a optar por “opções mais equilibradas” e saudáveis (no nosso caso, por exemplo, abolimos o sal da confeção das refeições, substituindo por ervas aromáticas). Essas refeições em família, devem ser um momento de convívio, boa disposição e tranquilidade, e constituir para o bebé, um momento também de brincadeira e descoberta, permitindo assim que cresça com uma relação saudável com a comida.
O BLW incentiva a autonomia. O bebé não é um ser passivo que é alimentado. É sim um ser ativo, que assume o controlo da sua refeição.

Princípios do BLW
Amamentação/aleitamento como base. A fase inicial da alimentação, a partir dos 6 meses, consiste numa experimentação. Desta forma, o leite deve continuar a ser a base da alimentação do bebé. Os outros alimentos são apenas complementares. 
O BLW tem benefícios para os bebés tanto amamentados como alimentados com leite de fórmula.
Permite a descoberta da comida. Permite que o bebé utilize o seu desejo de explorar, de experimentar e de imitar as atividades dos outros. Assim, ele define o ritmo de cada refeição e prepara-se para a transição para os sólidos da forma mais natural possível.
Os bebés que comem sozinhos têm mais do que apenas o sabor do alimento para conhecer. Podem experimentar também texturas, cores, tamanhos e formas. A alimentação infantil através de sopas e papas torna-se bastante monótona, sendo que não é possível diferenciar sabores (tudo sabe ao mesmo).
A propósito deste facto e do ponto de vista nutritivo, a sopa, como forma de consumir vegetais e legumes, pode ser facilmente substituída pelos legumes e verduras no prato.
As farinhas comercializadas para “papas” não apresentam qualquer valor nutritivo e não constituem de todo uma alimentação saudável. 

Apesar de ser considerado por muitos, como uma moda, é no entanto, talvez, o método mais antigo de introdução da alimentação complementar.
Como em tudo na área da parentalidade, também neste método, existem diversos mitos.
Um dos mais frequentes, é o facto de se considerar que aumenta o risco de engasgamento. 
Felizmente, vivemos num mundo com estudos científicos (acessíveis a qualquer pessoa/pais) e que por isso é possível e relativamente fácil, refutar este e tantos outros mitos.
Ora então, SE o bebé controlar todos os alimentos que vão para a sua boca, estiver sentado corretamente (ereto) e lhe oferecerem os alimentos preparados de acordo com o seu desenvolvimento motor, o BLW não aumenta o risco de engasgamento face ao método “tradicional”. Bem pelo contrário, provavelmente diminui o risco de engasgamento, uma vez que o bebé não é um ser passivo na sua própria alimentação.
Muitas vezes as preocupações com o engasgamento estão relacionadas com a presença do “gag reflex” (ou reflexo faríngeo), um reflexo fisiológico que parece algumas vezes levar os pais a confundir o reflexo protetor fisiológico com o engasgamento.

O que é então o reflexo faríngeo?
É um reflexo de vómito que afasta os alimentos das vias aéreas sempre que estes são muito grandes para engolir. O bebé abre a boca e empurra a língua para a frente. Por vezes deita fora pedaços de comida e até pode ocorrer um pequeno vómito.
Nos bebés de 6/ 7 meses, este reflexo é despoletado numa zona mais anterior (à frente) da língua, desta forma, é ativado mais facilmente que nos adultos (ou crianças mais crescidas, pois este é ativado mais junto da glote), ajudando-o assim a lidar com os alimentos de uma forma segura.
Isto porque, quando ocorre, o pedaço de comida que desencadeia este reflexo, está muito longe das vias aéreas, como tal os bebés, muito raramente estão em risco de engasgamento (o engasgamento ocorre quando há obstrução parcial ou total das vias aéreas, e quando tal acontece também ele tem o fator protetor da tosse, que é, habitualmente eficaz).
Dois fatores que aumentam o risco de engasgamento em BLW são: alguém colocar alimentos (ou bebidas) na boca do bebé E um bebé “sentado” numa posição mais recostada ou deitada.











Obs: "Gag Reflex"

Dicas práticas:
(Adaptado do blogue “ O bebé sabe comer”)

- Colocar o bebé sentado no colo ou numa cadeira específica (nunca numa espreguiçadeira)
- Oferecer os alimentos (o ideal é colocar 2 a 3 variedades em cima do tabuleiro da cadeira) e deixar o bebé livre para manuseá-los). 
Lembre-se que os primeiros tempos são de descoberta e de aprendizagem. Fique tranquila se pouco ou nada comer. Permitir brincar e explorar é crucial.
- Começar com alimentos fáceis de agarrar, grandes o suficiente para que o bebé os consiga agarrar (cortar os alimentos em forma de palitos largos e compridos, de forma a permitir que o alimento fique para além do punho fechado do bebé)
 - Carne e peixe poderá ser dado ás tiras/lascas, hambúrgueres, almôndegas, croquetes, bolinhos ou no osso (exemplo, costeletas ou coxa de frango)
- Evitar alimentos que formam uma "pasta" na boca (por exemplo o pão);
- Garantir que os alimentos estão macios (por exemplo os legumes cozidas ao vapor são uma boa opção)
- Permitir que o bebé participe da refeição familiar (uma das vantagens do BLW é não ter que cozinhar pratos específicos e exclusivos para o bebé)
- Continuar a amamentar (ou oferecer o leite artificial como antes). O leite é será a principal fonte de nutrientes do bebé, até o primeiro ano de vida.
 - Disponibilizar água durante as refeições.
- Não apressar ou distrair o bebé.
- Não colocar (nunca) comida na boca do bebé 
- Nunca deixar o bebé sozinho durante a refeição











Obs: Entrecosto

Alimentos “proibidos”
- Sal
- Mel (introduzir SÓ depois dos 2 anos)
- Açúcar (não oferecer nunca, se possível)
- Alimentos processados
- Fritos
- Leite de vaca (“leite de pacote” que deverá ser oferecidos apenas a partir dos 12 meses em bebés não amamentados e SE a família consumir leite de vaca).

TODOS os outros alimentos podem e devem ser consumidos a partir dos 6 meses de idade .
Os bebés são uma página em branco, como tal cabe-nos a nós ensinar todos os sabores possíveis, sendo que “a janela” ideal para a apresentação desses sabores, situa-se entre os 6-9 meses, sendo que até aos 10 meses têm o factor protector que a amamentação lhe  confere. Despois desta janela, e quanto mais tarde a introdução,  mais resistência poderão apresentar e maior o risco de alergia.
Mantem-se no entanto, o princípio geral de segurança, de introduzir novo alimento/sabor com um espaçamento de 3 dias.


E assim tem sido.
Uma descoberta para nós enquanto família.Uma fase maravilhosa do bebé. Uma partilha, de refeições e de momentos deliciosos.
Para nós a melhor opção...



Recomendo:
Blogues:
https://www.nacadeiradapapa.com/ (boas receitas )
http://obebesabe.com/ 
https://www.apitadadopai.com/ (receitas saudáveis, com a ressalva de que o autor, como segue o método tradicional, apresenta timmings em meses, não compatíveis com a filosofia BLW)
Livros:
"O bebés sabem comer sozinhos". Baby-Led Weaning. Gill Rapley e Tracey Murkett
"Comer bem, Crescer saudável.Alimentação Consciente para bebés e crianças". Joana Appleton Figueira e Joana Moura.