terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Parto não idealizado.Parto feliz e respeitado...

Três meses passados, superados os desconfortos de uma deiscência da sutura cirúrgica e de uma loca que só agora fechou, de uma lua de leite interrompida por várias mastites, pela preocupação e ansiedade de uma perda considerável de peso do meu bebé, que terminou num diagnóstico de infeção urinária, depois de tantas mensagens de carinho, curiosidades e questões quanto à minha experiência de parto, é chegada a hora de partilhar convosco a experiência do nascimento do Francisco.
Uma experiência que não tendo sido a idealizada, uma vez que não consegui um parto vaginal, foi profundamente positiva,maravilhosa, transformadora e conciliadora.

Experiência que começou às 22h do dia 20 de outubro. Num cenário nunca imaginado e ao mesmo tempo tão temido.
 Enquanto preparava o banho do filho mais velho, senti as primeiras gotas líquidas a sair de forma involuntária e em poucos minutos, a poça no chão do wc de um líquido quente e incolor confirmou. A bolsa amniótica tinha rebentado.
Quando digo um cenário nunca imaginado, refiro-me às minhas “certezas” de que esta gravidez duraria cerca de 41 semanas. Temido, porque sabia que a rotura prematura de membranas (rotura antes do início do trabalho de parto) com história de uma cesariana anterior, nos poderia conduzir a escolhas e a possíveis caminhos, que eu não desejei/desejava. Sabia perfeitamente que a premissa “uma vez cesarina, sempre cesarina” é completamente falsa. No entanto tinha perfeita consciência que as hipóteses de conseguir agora um parto vaginal aumentavam e dependiam em grande parte de um trabalho de parto e parto o mais fisiológico possível (com o mínimo de intervenções e medicação possível) que incluía obviamente um início de trabalho de parto espontâneo.
Esta rotura poderia ser (ou não) um impeditivo dessa fisiologia que tanto desejava. Por vezes ouço considerar o rompimento da bolsa amniótica, como um início de trabalho de parto. Gostaria de aproveitar e dizer que isso não é de todo verdade. Considera-se o início de trabalho de parto quando se iniciam as contrações regulares e de intensidade crescente.
Perante uma rotura deste tipo, ou seja em ausência de trabalho de parto, existem dois caminhos possíveis. Espera-se que este se inicie espontaneamente (que as contrações se instalem e aumentem gradualmente, o que na maioria das vezes acontece ao fim de 12h, dizem as estatísticas) ou se induz/provoca o trabalho de parto, através do recurso a fármacos.
Como não queria decidir/optar por uma indução, preservando assim a fisiologia do início de meu trabalho de parto, decidimos esperar. Esperar que as contrações iniciassem. Sentia-me bem, o líquido amniótico não tinha qualquer cor, sentia o Francisco mexer normalmente, como tal aguardaríamos.
No entanto, e sem confidenciar naquela altura nada com o meu marido, temi o fator tempo. Porque o risco de infeção após rotura existe, senti que a partir das 22h daquele dia o “nosso relógio” começava a contar.
Hoje a meses de distância, questiono se não seria este meu medo consciente do “relógio”, a causa de todo o bloqueio. Nunca o confirmarei…mas acredito que sim.
Preparei a mala da maternidade (quem me conhece sabe o quanto me irrita a histeria à volta da mala da maternidade e a suposta “necessidade” de a fazer com semanas de antecedência), deitei o mais velho que ficou excitadíssimo, mas que espantosamente me disse, “Mãe, hoje é dia 20, mas ele vai esperar por 22 e nascer no mesmo dia que eu”, preparei a sua mini mala para a estadia em casa de uns amigos, e de seguida, movimentei-me. Subi e desci (as imensas) escadas de minha casa, arrumei “o ninho” para que estivesse tudo impecável quando regressasse, estive na bola de Pilates durante um bom período, comi, e deitamo-nos (sabíamos que nas próximas horas/dias não teríamos hipótese de voltar a dormir “sossegados”).
A madrugada chegou e com ela chegaram também algumas contrações, pouco ou nada dolorosas e não regulares.
Decidimos que na ausência de qualquer outro sintoma/sinal, esperaríamos pela manhã para irmos até ao hospital. Nessa altura, teriam decorridas cerca de 12/14h após rotura, e como tal seria importante que ocorresse uma avaliação do bem-estar do Francisco.
E assim foi…levantamo-nos por volta das 8h, com as mesmas “contraçõezitas”, preparamos o pouco que faltava, “entregamos” o Diogo e seguimos para a Póvoa de Varzim. Durante o caminho, “reavaliamos” o nosso Plano de Parto, revimos o plano B (indução farmacológica) e o Plano C (cesariana) caso necessitássemos deles. Falamos das possibilidades que nos seriam colocadas, uma vez que continuava em ausência de trabalho de parto e da possibilidade de ouvirmos um “recado” da equipa (médica) pela decisão de termos esperado (o que maior parte considera) “tanto tempo”…
Chegamos ao hospital, por volta das 10h, fomos amavelmente recebidos pelo Obstetra, sem “recados” ou juízos, numa relação empática de esclarecimento e de recolha do consentimento informado. Após avaliação, confirmaram-se os nossos receios. 12h haviam passado desde a rotura total da bolsa amniótica e eu estava em ausência de trabalho de parto. Contrações esporádicas e de fraca intensidade, o colo uterino posterior, formado, com 1,5 cm de dilatação.
Foi-me explicado, do ponto de vista do Obstetra, a necessidade de internamento e da vigilância do bem-estar do Francisco, do protocolo instituído no serviço de antibioterapia ao fim das 18h de rotura, (pelo risco de infeção quer para a mãe, quer para o bebé) e foi-nos proposto a indução através da maturação do colo uterino com dinoprostona/Propess (um dispositivo vaginal de libertação lenta, com durabilidade de 24h). Foi-nos igualmente explicado a outra “hipótese” farmacológica (misoprostol) existente e a sua contra indicação no meu caso (o uso deste fármaco está associado a um aumento de risco de rotura uterina e de necessidade de uma cesariana emergente, em parturientes com história de um parto anterior por cesariana).
 Mas que acreditava que com a opção que me propôs iria ter “grandes chances” de conseguir um parto vaginal.
Louvo esta atitude. Soube bem ouvir aquele comentário. Soou a um incentivo e foi um sopro de confiança (que precisava naquele momento).
Prós e contras avaliados e ponderados, decidimos e aceitamos a maturação cervical, com dinoprostona, conforme proposto.
Tínhamos total consciência que esta decisão “quebraria” a fisiologia do meu trabalho de parto e como tal a “escada de hipóteses” para um parto vaginal havia descido um degrau, mas, acreditamos que iríamos conseguir.

Passamos ao internamento, e aí se iniciou uma jornada, que considero plena de felicidade, bem-estar e união! Uma jornada, num local onde nos sentimos acolhidos, acarinhados, muito apoiados e respeitados.
Fomos acolhidos pela Enfa Ilda, Parteira feiticeira*de sorriso rasgado contagiante e que será sempre “O rosto” desta minha experiência. Entre muitas palavras, guardarei com especial carinho a frase de incentivo após a primeira avaliação que fez do bem-estar do Francisco, “Sei que já passaram muitas horas, sei que a indução não era o quadro que esperavas, mas vai correr tudo bem. Estou aqui até às 20h e depois, terás “outra feiticeira” para te apoiar.
 Soube tão bem ouvir (mais) isto naquele preciso momento. Senti-me tão compreendida e apoiada.
A Enfª Ilda havia preparado meticulosamente o nosso quarto de acordo com o estipulado no nosso Plano de Parto. Luz ambiente escurecida, com recurso apenas a um candeeiro, a piscina, a bola de Pilates, um colchão no chão, um Peanuts e uma playlist (usada nas sessões de preparação para o parto pelas colegas do serviço) caso a quisesses  utilizar, uma vez que a playlist escolhida por nós para este dia estava acessível apenas com recurso a net/dados móveis (aqui está “o defeito” deste serviço, a cobertura do serviço “Wi fi utente” é péssima).
Colocamos o aroma escolhido no difusor que tínhamos levado para esse feito, lavanda (um dos aromas recomendados para aromaterapia durante o trabalho de parto e que será “O cheiro” desta doce memória), e ali naquele espaço, permanecemos deliciosas 24h a viver em pleno o meu, o possível e tão desejado trabalho de parto.

O Plano de Parto apresentado e discutido previamente na consulta de Plano de Parto foi cumprido na íntegra. Privacidade total, estivemos sempre sozinhos (eu e o pai), porta fechada, que nunca se abriu sem um pedido de permissão, sem entradas desnecessárias, sem outros profissionais que não as Parteiras, total liberdade de movimentos, sem qualquer restrição, sem soroterapia, sem monitorização contínua e quando necessária, esporadicamente (uma vez que estava sob efeito de medicação de indução, e como tal a vigilância do bem estar fetal era necessária) foi sempre possível movimentar-me pelo quarto (os cardiotocógrafos funcionam com recurso a telemetria).Fui submetida ao exame vaginal (“o toque”) unicamente duas vezes e porque assim o solicitei. Comi (e a gelatina de ananás será “O sabor” desta experiência), bebi, caminhei, utilizei o wc as vezes que precisei, dancei zumba, namorei, fui massageada pelo companheiro (e que bem sabia durante as contrações), usei a bola de Pilates, usei o colchão que me foi colocado no chão, onde em posição de 4 apoios (joelhos e mãos no chão) aliviei o desconforto das contrações. Usei a água do chuveiro para alívio dos desconfortos, uma vez que o protocolo instituído para o uso da piscina para hidroterapia, exclui casos de maturação/indução farmacológica.
Ao longo destas 24h fui sentindo bastantes contrações e algumas de intensidade moderada e desconfortáveis (não estive sob efeito da analgesia epidural durante estas 24h) outras menos intensas, mas cada uma delas foi recebida como uma bênção. Senti-me uma privilegiada pela oportunidade de estar a viver o que sempre desejei, um “trabalho de parto”.

As horas avançavam, já havia iniciado a toma de antibiótico e repetida a cada 4h, e o “nosso relógio” começou a tomar conta do meu pensamento. Não sentia evolução no trabalho de parte e o possível risco de infeção para o Francisco começou a ser uma preocupação e uma responsabilidade.
Já de madrugada pedi que me fizessem uma nova avaliação, que incluísse o exame vaginal.
Avaliação essa, que confirmou as minhas suspeitas. As contrações que apesar de desconfortáveis, eram irregulares e não estavam a ser eficazes para uma progressão do trabalho de parto. Mantinha colo posterior, agora 50% extinto, e dilatação de cerca de 3/4 cm.
Não me esquecerei do rosto e da expressão da colega Andreia ao fazer-me “este relato”. Não vi a minha, mas sinto que terá sido a mesma. Senti-me desolada.
Desabafei com ela o peso que o “relógio” me causava. Nesta altura haviam passado 32h desde a rotura da bolsa amniótica.
Conversamos um pouco sobre a situação, sobre o risco inerente, sobre que alternativas me restavam quando o efeito da dinoprostona terminasse (24h após a sua colocação), sobre as práticas obstétricas, nomeadamente do serviço, nestes casos.
Apesar de o Francisco não ter apresentado em momento algum, qualquer sinal de “sofrimento” ou de ausência de bem estar, o valor da minha análise sanguínea à proteína C reativa (uma proteína produzida no fígado que aumenta na presença de um processo inflamatório/infeção) estava elevado. Sabia que tinha que tomar uma decisão em breve.

E assim foi. Essa decisão foi-nos pedida na manhã do dia 22. A equipa médica obstétrica que entrou ao serviço, tal como prevíamos, não recomendou ou apresentou alternativas terapêuticas para continuar a maturação cervical ou a indução de contrações (ocitocina) alegando o risco associado à minha cesariana anterior. A sua proposta foi a realização de uma cesariana
Perante tal, restavam-nos dois caminhos. Aceitávamos a proposta, ou decidíamos aguardar a implementação da regularidade das contrações e o desenrolar do trabalho de parto, desta vez sem auxílio de fármacos.
Perante estes dois cenários, prós e contras mais uma vez ponderados e porque nesta altura haviam decorrido 36h após rotura, o risco de infeção era real, a espera implicava mais horas e mais horas implicava mais riscos, aceitamos.

Mesmo desejando muito um parto vaginal, não íamos correr mais possíveis riscos. Percebemos e aceitamos que a cesariana à 12 anos atrás sem qualquer razão clínica, tinha-nos conduzido a este desfecho. Que as possibilidades farmacológicas “seguras” haviam sido utilizadas. Decidimos em consciência e a cesariana foi, perante o cenário, a nossa escolha.

Desejávamos a ser necessária, conforme exposto no nosso Plano de Parto, uma cesariana respeitada, “serena” e o menos “agressiva” possível para o Francisco (se é que uma cesariana possa ser em alguma circunstâncias “pouco agressiva” para o bebé), pretendíamos pelo menos uma extração calma e as menos intervenções possíveis do Pediatra após o nascimento, e naquele momento, estavam reunidas as condições para que assim fosse.

E assim foi. O Francisco nasceu de uma “cesariana especial” (pelo menos para mim e tendo como comparação a experiência anterior).

Fui até ao bloco operatório vestida com a minha roupa e pelo meu pé, ao invés de deitada numa cama vestida com uma bata cirúrgica. Pode ser considerado um mero pormenor, mas não é, e não o foi para mim. Senti que o pormenor de nos manterem com a nossa roupa o maior tempo possível (até á entrada na sala cirúrgica e à saída da mesma no final da cirurgia) não só não nos “adoenta” naquela situação, já tão frágil, como não nos despersonaliza. Senti que respeitaram e preservaram a minha individualidade e identidade.

Presença do pai durante a cirurgia. E que crucial e apaziguador foi tê-lo ali ao meu lado a afagar e beijar a minha bochecha, naquele momento em que uma sensação indescritível de ansiedade assume o comando dos nossos pensamentos.
A sua presença no momento do primeiro choro, os seus braços que receberam o Francisco, o seu olhar e as lágrimas conjuntas que choramos ao ver aquela pessoazinha pela primeira vez, foi tão acolhedor e harmonioso.
Deveria ser expressamente proibido, proibir a presença do pai durante a cesariana.

Possibilitaram a presença do Francisco junto a mim (no colo do pai) durante algum tempo. Não fiz o contacto pele a pele, dentro do bloco, mas fizemos um longo contacto “bochecha a bochecha”.
Agradeço à Anestesista que me acompanhou na cesariana. A sua perseverança em me permitir uma anestesia loco regional (a colocação do catéter epidural para posterior anestesia foi extremamente difícil, sendo mesmo o pior momento que recordo desta experiência, e sei que teria sido mais fácil e mais rápido, para ela e para a equipa uma anestesia geral), o seu carinho e cuidado para connosco, pelo relato que nos fez do que ia acontecendo na mesa cirúrgica, pelas suas lágrimas, de “reação” às nossas e por ter diversas vezes limpo as minhas.

O Francisco não esteve sozinho, ao contrário do meu primeiro filho, separou-se de mim e abandonou a sala de cirurgia no colo do pai e só estiveram separados por curtos minutos enquanto o pai trocou a roupa que usou no Bloco Operatório.
Fez contacto pele a pele com o pai na primeira hora de vida, num momento a dois sem perturbações ou manipulações, e quando rapidamente me juntei a eles (porque pedi para não completar o tempo de total de recobro) passou do peito do pai para o meu e aí permaneceu durante horas, até ocorrer o breast crawl, a amamentação e até eu decidir vesti-lo.

O internamento decorreu de forma muito serena e respeitada, à exceção da visita médica diária por parte de Pediatria, que conclui ser caótica, não só na sua organização como na sua intervenção (prescrição de colheitas de sangue ao Francisco para despiste de rastreio séptico, pressão para a introdução do leite de fórmula por uma perda ponderal de peso de 10%)
Senti que foram 48 horas felizes em que me senti “quase em casa”.
Presença do pai contínua. A filosofia do CHPVVC é, e muito bem, considerar o pai, não como acompanhante ou visita, mas como elemento de todo o processo. Não existe uma grávida, existe um casal grávido. Como tal desde há algum tempo e após um esforço de reorganização do serviço em termos de gestão de número de camas, o pai pode permanecer, não só durante todo o trabalho de parto e parto, mas também durante todo o tempo de internamento, assim o deseje (sendo a única condicionante, para preservação da privacidade das puérperas internadas, a possibilidade de utilizar os chuveiros para a sua higiene pessoal, apenas a partir das 22h).
Privacidade total no quarto, sendo a porta do mesmo mantida fechada, conforme a nossa vontade. Pedido de permissão para entrar, em qualquer circunstância e por parte de qualquer elemento. Preocupação, respeito e cuidado em não interromper os momentos de descanso, fossem os meus ou os do Francisco. Tom de voz da equipa sempre sussurrante e luzes sempre escurecidas.
Fomos sempre tratados por todos os profissionais pelo nome próprio (ajuda o quarto/cama estar identificada com o “nome de todos os intervenientes” ;-) ). Outro “pormenor” bem representativo do respeito pela individualidade de cada casal/família, abolindo o habitual recurso à “mamã”, “papá” ou “o bebé”.
O meu filho mais velho permaneceu comigo o tempo que ele e nós decidimos, sem qualquer restrição de hora de visita, hora de entrada ou de saída.
O Francisco mamou em livre demanda, sem pressões ou rigidez de horário por parte da equipa de Enfermagem.
O seu primeiro banho foi dado em banheira Shantala conforme nossa vontade, sem horário e dia estipulado, fora de qualquer rotina ou obrigatoriedade, e no aconchego do nosso quarto.
Tudo foi, para nós, perfeito.

A nossa opção pelo CHPVVC ( Hospital PÚBLICO da Póvoa de Varzim) para o nascimento deste filho, como já o escrevi antes, esteve sempre relacionado com a excelência no cuidar que este serviço pratica (não é à toa que é considerado uma referência nacional no que concerne ás práticas obstétricas).
Tinha e tenho a certeza que só aqui respeitariam a fisiologia de um trabalho de parto e parto, que só aqui as nossas decisões seriam respeitadas, que só aqui teríamos liberdade para fazermos escolhas informadas.
Desejávamos para nosso bebé um nascimento vivido num ambiente de proximidade, personalizado, num acontecimento íntimo e familiar.
E aqui o conseguimos. E por essa razão este nascimento foi tão positivo e maravilhoso.
Precisávamos viver este nosso (longo) tempo. Precisávamos sentir que nos permitiram vivê-lo. Precisávamos de o entender, respeitar e decidir. Precisávamos viver esta experiência conjunta, enquanto casal grávido. E por isso este nascimento foi tão transformador.
EU precisava viver esta experiência, entender algumas emoções, sentir as diversas sensações. Precisava sentir-me “especial”, ouvida, apoiada e respeitada nas minhas opções. Por isso este nascimento foi tão curativo e conciliador.

Cliché ou não…EU renasci enquanto mulher e mãe.

Porque afinal…
“não me interessa o tipo de parto que tenhas, um parto em casa, uma cesariana marcada, um parto hospitalar com epidural, ou um parto no meio da floresta. Importa-me sim, que tenhas opções, que sejas apoiada nas tuas escolhas e que te respeitem” January Harshe
(Obrigada feiticeira Patrícia por me teres recordado 💓 )

Tive a oportunidade de deixar na caixa de sugestões do serviço um agradecimento escrito a toda a equipa do serviço de Bloco de Partos/ Obstetrícia e já voltei a esta “minha casa” para rever algumas destas pessoas extraordinárias e agradecer pessoalmente.
No entanto não quero deixar de o referir aqui também.
Eternamente grata a este pequeno hospital e a esta especial equipa, por me terem permitido viver esta maravilhosa experiência, por termos sido tão bem acolhidos, acarinhados e respeitados.

As memórias tão positivas do que vivi permanecerão para sempre nas nossas vidas.

Porque “gente simples, fazendo coisas pequenas, em lugares pouco importantes, consegue mudanças extraordinárias”. E sem dúvida, esta equipa está mudar o mundo.Bem hajam.



sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Eternizando a Gravidez...

É sabido que para MIM, a gravidez é um dos momentos mais bonitos e importantes na vida de uma mulher. Considero uma bênção ser Mulher e poder gerar e nutrir, de alimento e amor, uma nova vida.
Talvez por isso adore a beleza de um qualquer corpo grávido e de uma barriga desnuda.
O meu molde e a minha barriga não é exceção. Adoro! E como adoro, adoro fotos deste molde e desta barriga. 😉
Quando estamos grávidas somos frequentemente acarinhadas com comentários lisonjeadores das pessoas que nos dizem que estamos lindas. Acreditando que não será sempre verdade, até porque o resultado dos normais desconfortos de uma gravidez deixam algumas “marcas”  😋 confesso que em nenhuma fase da vida, me senti ou sinto tão bonita e luminosa como quando estou neste pleno “Estado de Graça”.

Na gravidez do Diogo, e já lá vão 12 anos, tirei algumas fotos na reta final da gravidez (no tempo dos rolos e da impressão obrigatória) e a minha irmã fez-me, no âmbito de um trabalho académico, uma pequena e singela sessão. Sessão essa que apesar de não ser profissional, adorei, e que guardo até hoje com muito carinho.
Com a notícia desta gravidez, tão inesperada quanto intensa e transformadora, cedo decidimos,
apesar da nossa timidez e pouco à vontade em relação a sermos protagonistas de uma sessão fotográfica (já que nenhum dos três gosta de ser fotografado), que iríamos procurar um profissional que fizesse um registo fabuloso e especial deste nosso momento.
E a procura estava feita. Soube de imediato quem seria a escolhida. Já me havia “cruzado” com o trabalho desta fotógrafa fazia algum tempo, através do registo fotográfico que havia feito a muitas amigas e grávidas que acompanhei. E desde logo me tinha apaixonado pelo seu trabalho. Apaixonado pelas suas fotos descontraídas, naturais, a luz, os pormenores, etc. Não nos identificamos nada com aquelas fotos, de postura rígida, todas "xpto", cheias de adereços em cenários/fundos artificiais. Queríamos uma coisa minimalista e simples. A Sara seria sem qualquer dúvida a profissional que iria fazer a nossa Sessão de Gravidez.

Mas…tinha guardado para a Sara, um pequeno desafio.
Porque para nós, a água é sinónimo de força, natureza, união, cumplicidade, conforto, privacidade e porque este elemento ganhou um significado especial, nesta gravidez e neste parto, desafiei a Sara a fotografar-nos, enquanto casal grávido, dentro de água.
Desafio esse perante o qual, me respondeu prontamente, “não costumo fazer esse tipo de fotografias, mas gosto de desafios, por isso parece-me uma boa ideia” 😊
E assim foi, encontramo-nos no final da tarde do dia 17 de setembro, num espaço privado, lindo, mágico e harmonioso, carregado de uma história e significado pessoal MUITO especial para nós enquanto família, para realizarmos aquela que seria a nossa sessão e aquele que seria o desafio da Sara. 😰
E lá entramos nós, naquele fim de tarde ventoso mas solarengo, na água gélida do rio, acompanhados da Sara, ainda em recuperação de uma gripe...

Numa palavra. AMEI!! O resultado não poderia ter sido melhor. Adoramos ser fotografados pela Sara, uma sessão super descontraída, em constante interação, diversão, cerca de 90 minutos que voaram, e cujo resultado foi o que desejávamos. Simplicidade e Naturalidade.
As fotos estão espetaculares, tanto as da água, como fora dela. É difícil conseguir escolher as melhores (foi difícil escolher SÓ algumas para este post, a vontade era colocá-las todas 😉 ).
Grata Sara por este momento, por esta partilha, por este registo e pelo privilégio de podermos ter usufruído desse teu dom. Tenho a certeza que nos vamos voltar a encontrar!!

As fotos estão ou não lindíssimas!? 😉💗


















E porque só recomendo o que confio a 100%, deixo aqui a minha/nossa recomendação do trabalho da Sara Marilda Photographer e os seu contactos:

Email: info.saramarilda@gmail.com

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A gravidez e o negócio das Ecografias ...

A ultrassonografia ou ecografia na gravidez, é um exame não invasivo que usa ondas de som para criar uma imagem do feto. Foi criada para ser utilizada quando existisse uma necessidade/razão médica e para ser realizada por profissionais devidamente acreditados para tal.
A sua finalidade é avaliar entre outras, a vitalidade fetal, a idade gestacional, a deteção de números de fetos, a deteção de malformações congénitas fetais, etc.

A Organização Mundial de Saúde e a Direção Geral de Saúde recomendam atualmente, a realização de três rastreios ecográficos durante a vigilância de gravidez. Não descartando obviamente a necessidade de outras quando existam razões clínicas para tal.
1ªEcografia - Primeiro trimestre (entre as 11 e 13 semanas e 6 dias), cujo objetivo é confirmar a viabilidade fetal, determinar o número de fetos, diagnosticar malformações e contribuir para a avaliação de risco de aneuploidias.
2ª Ecografia- Segundo trimestre (entre as 20 e 22 semanas e 6 dias), denominada morfológica, cujo objetivo é confirmar alguns dados da eco do 1º trimestre, mas essencialmente a identificação de malformações fetais.
3ª Ecografia- Terceiro trimestre (entre 30 e 32 semanas e 6 dias), cujo objetivo é avaliar o desenvolvimento fetal (deve incluir o perímetro cefálico, abdominal, comprimento do fémur e estimativa ponderal) e o diagnóstico de anomalias tardias.

À semelhança de “muitas outras coisas “na área da Obstetrícia, a tecnologia das Ecogarfias e os seus avanços, ao invés de ser utilizado como uma mais valia ou um recurso, segundo indicações clínicas precisas e excecionais, rapidamente se tornou rotina, e passou a ser usada indevidamente e de acordo com outros interesses, nomeadamente os económicos.
Há anos que acompanho casais que quando questionados sobre a opção por um médico  Obstetra privado para vigilância da gravidez de baixo risco, me respondem maioritariamente, porque “podemos  fazer uma ecografia em cada consulta (portanto com um periocidade média mensal) o que nos possibilita saber se “está tudo bem”.

Faço aqui uma pausa, para possibilitar um reflexão...
E se não “está tudo bem”? o que fazemos nós casal, com essa informação quando o “problema” não coloca  em causa a sobrevivência do feto/bebé?
De que forma a notícia do “não está tudo bem” é dada ao casal? Que sensibilidade terá o profissional para lidar com essa notícia? Ou será sempre dada? Valerá a pena transmitir alguma preocupação e ansiedade ao casal? Quais as vantagens?
Como é que psicologicamente decorrerá o resto de uma gravidez perante, por exemplo, uma estimativa de peso acima da média, às 32 semanas, quando o profissional que realiza a ecografia refere, “Que bebé tão gordo!”?
Ou que efeito terá no casal uma suspeita de diagnóstico de feto portador de “pé torto” (varo/valgo)?
Tanto o peso estimado, como o “pé torto” serão um diagnóstico definitivo após e SÓ após o nascimento. O que é possível fazer até lá? Nada! Que vantagem traz a esse casal e a esse feto a transmissão dessa suspeita?
Peço perdão pelos exemplos, mas é um assunto que me toca particularmente. O primeiro porque fui “vítima” durante a primeira gravidez do alarmismo em relação ao “bebé gordo e grande”(que se mantém nesta gravidez) e o segundo porque tenho assistido a gravidezes verdadeiramente “ceifadas” pela suspeita de um diagnóstico de “pé torto”.

Retomemos a questão do negócio das ecografias.
Se por um lado temos uma sociedade iludida, que acredita que através desta técnica de diagnóstico tem a garantia de um bem estar fetal temos por outro lado um conjunto de profissionais iludidos que acreditam que as ecografias lhes confere algum grau de “controle” da gravidez ou um grau de conhecimentos acima de outros (só relembrar a propósito dos “iludidos”, que se “perdem” tantos fetos in útero cujas ecografias regulares não detetaram nenhuma anomalia) e um outro grupo de profissionais que consegue através da ecografia garantir a sobrevivência de um consultório privado.
Ressalvando que existe igualmente um outro grupo de profissionais, se bem que conheço muito poucos, que respeitam as indicações clínicas para a realização de ecografias e que se recusam a realizar ecografias “por rotina”, mesmo em consultórios privados.
Mas independentemente das razões, se se fazem é porque é seguro para o feto? Certo? Perguntarão vocês?
Não. Não é assim tão inofensivo, nem assim tão lógico, afirmarmos que se se fazem é porque são seguras.
Mais uma vez, assim como “muita outra coisa” na área da Obstetrícia, primeiro experimenta-se e depois é que se estuda/ comprova. Basta pensarmos que durante mais de 50 anos as grávidas foram sujeitas a raios X para determinar o tamanho fetal e a proporção pélvica, antes de descobrirmos que essas radiações estavam a causar efeitos colaterais graves nos fetos.

A ultrassonografia/ecografia funciona através do envio de ondas sonoras de alta frequência, transmitidas através do abdômen da mãe, através de um transdutor, que criam um "eco" onde as ondas sonoras saltam do objeto (neste caso o feto). Foi na realidade, desenvolvida extremamente rápido e não foram realizados muitos ensaios de controle aleatório para determinar a sua segurança.

Os riscos da ultrassonografia são essencialmente, o aquecimento dos tecidos e a cavitação, e para os quais diversos investigadores já alertaram para a alteração do comportamento das células da placenta, cordão umbilical e feto que ocorre com estes efeitos. Não existe nenhum estudo que comprove a inocuidade da ultrassonografia, no entanto existem diversos estudos realizados ao longo de décadas, não só com mulheres grávidas, como com crianças, que comprovam existir diferenças entre as que foram sujeitas a ecografias e as que não o foram.
As pesquisas mostram que o grupo sujeito a ultrassonografias têm uma taxa de mortalidade perinatal quadruplicada, risco de aborto espontâneo, risco duplicado de parto prematuro, taxas aumentadas de dano cerebral, dislexia, atrasos na fala, epilepsia e dificuldades de aprendizagem.

A somar a estes estudos, temos atualmente mais riscos acrescidos. O do avanço tecnológico dos aparelhos atuais, que para permitirem imagens cada vez com melhor resolução/definição, utilizam a emissão de ondas sonoras de frequência mais elevada, logo mais absorvidas são pelo feto, o número de ecografias que é cada vez maior (muito para além das 3 recomendadas), pelas razões já anteriormente apresentadas, e a entrada no mercado de empresas que realizam ecografias 3D e 4D, publicitadas de “emocionais”, sem qualquer controle dos profissionais que as efetuam, dos aparelhos utilizados ou mesmo do tempo a que sujeitam as grávidas/fetos às ondas de elevada frequência.

O mesmo “apelo de risco” engloba os disseminados Dopller’s adquiridos por venda livre pelas grávidas para ouvirem os batimentos cardíacos do seu bebé no domicílio.

Em suma, as ultrassonografias/ecografias têm um propósito. Devem ser realizadas o menos possível, devem ser justificadas por uma indicação clínica válida, devem ser explicados os benefícios, limitações e riscos ao casal e assim obtido um consentimento informado.

E NUNCA realizadas e justificadas como uma forma de recordação, ou ligação emocional ao feto/bebé.😒

Deixo-vos o link de acesso a um post da página do facebook da APDMGP, onde constam alguns dos estudos mencionados

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O mito e o absurdo da "hora pequenina"

Façamos um favor às grávidas!...
Parem de lhes desejar uma hora pequenina … é um perfeito absurdo!

Primeiro…o que é isto de uma hora pequenina? uma hora nunca é "pequenina"...1hora tem 60 minutos! não é grande, não é “pequenina”, é apenas 1h. Como tal e só por isso este desejo já é ridículo que chegue.
Segundo...este “desejo” da generalidade das pessoas (pelo menos em Portugal) tem implícito, mesmo que inconscientemente, a ideia de que será um “desejo favorável” tanto  para  a mãe quanto para o bebé.
Quando desejamos a tal “hora pequenina” criamos em quem a ouve e espera o nascimento de um filho, a expectativa que tal é “bom e possível” (e garanto-vos que não… nem é possível, nem tão pouco “bom”).
Quantos de nós já ouvimos no pós parto, desabafos de mães cujas expectativas da “hora pequenina” foi defraudada, julgando e definindo o seu trabalho de parto e parto como “muitas horas”. Ou casos de pessoas que ficam “escandalizadas e horrorizadas” quando ouvem histórias de trabalhos de parto e parto de dias, ao invés de horas. 😱
O último “desejo” a mim dirigido (pela gentil Sra da caixa de um hipermercado) foi, para além da tal “hora pequenina”, à qual eu prontamente retorqui, referindo que não era meu desejo uma “hora pequenina”, mas sim umas “horas boas”, a tentativa (exaustiva) de me convencer que “nos dias de hoje já não se justifica sofrermos e estarmos horas em trabalho de parto”....😲
Como se os mecanismos ou a fisiologia de um trabalho de parto e parto tivesse mudado com a sociedade.
O que mudou foi apenas a “cabeça” da sociedade e a forma como encaramos tudo. A nossa falta de tempo e paciência, o nosso desejo pelo facilitismo e rapidez, é que mudou. Isso, sim! Não, o trabalho de parto e parto.
Respeito a gentil Sra, e compreendo que a opinião dela corresponda à generalizada e “entranhada” opinião da sociedade atual, mas também têm que compreender que se a generalidade da sociedade atual e a gentil Sra soubesse “alguma coisa” sobre trabalho de parto e parto estaria… “caladinha”.
O desejo de uma “hora pequenina”, corresponde, mesmo que as pessoas não tenham consciência disso, ao não respeito pela fisiologia de um trabalho de parto e parto e consequentemente ao recurso das atuais e possíveis intervenções (na maioria das vezes desnecessárias e prejudiciais ao binómio mãe-bebé).
Mesmo os raríssimos casos de trabalhos de parto "rápidos" ou precipitados não se resumem, nem em sonhos, a uma hora. É redutor demais…
O trabalho de parto e parto é um “caminho” de horas...e sim pode ultrapassar o limite de 24h e passar a ser um percurso de dias…e sim, mãe e bebé podem estar bem…
São precisas horas (mais ou menos) para que mãe e bebé, ambos em sintonia, façam e percorram esse caminho. Caminho esse que depende de muitos fatores, internos e externos, portanto, diferente em cada nascimento.
O corpo da mãe precisa preparar esse caminho e o bebé precisa de o percorrer.
Compreenderão que nenhum atleta chega à meta, sem uma preparação física prévia, ou mesmo sem percorrer o caminho que constitui a maratona que o levará ao seu fim, a meta…
Assim é o trabalho de parto e parto…um trabalho de mãe e bebé…um trabalho, na maior parte das vezes demorado…um trabalho que requer paciência e respeito pelo tempo de cada um…

Por isso desejemos às grávidas/casais… umas “HORAS BOAS”, umas “HORAS CONFORTÁVEIS” ou “AS MELHORES HORAS POSSIVEIS”...
Não esqueçamos que, pensamos com as palavras e com palavras mudamos pensamentos…

É urgente normalizar e desmistificar o trabalho de parto e parto.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Onde irei parir e porquê "tão longe"?- O nosso Plano de Parto (Parte III)

Parir é fisiológico.É tão natural quanto tantas outras funções do nosso corpo.
Respiramos, dormimos, reproduzimo-nos e parimos há milhares de anos. É nisto que acredito! E como acredito...
É nisto que também acreditavam os nosso antepassados.Mesmo não sabendo nada sobre fisiologia do trabalho de parto e parto, nunca duvidaram ou nunca ninguém os fez duvidar... da perfeição da natureza, do corpo e da sua capacidade nata para parir.
Hoje sabemos tudo, ou deveríamos saber, sobre os "mecanismos" de parto.
Hoje sabemos que temos não só excelentes condições sanitárias e de higiene, mas também disponíveis recursos técnicos e humanos, para uma maior "segurança"no parto. Não sabemos ou parece que nos esquecemos, é que isto não invalida a naturalidade de todo o processo. E é precisamente aqui que estamos a falhar.Tornamos o ambiente onde a maior parte dos nascimentos atuais acontecem, os hospitais, num dos piores locais para uma mulher saudável parir. Um local cheio de gente, repleto de regras, protocolos, "tempos a cumprir", onde não existe espaço para a individualidade de cada mulher/casal.Um local de cultura altamente medicalizada, onde o  parto é visto como um procedimento de risco e não fisiológico/natural. Um local cheio de tecnologia visível, pouco acolhedor, com luzes fortes, ruídos, conversas inconvenientes ou desnecessárias, profissionais "naturalmente" preocupados e ansiosos.
Sabemos hoje, que tudo isto (condições dos quais os nossos antepassados estavam "protegidos")  não favorecem as funções naturais do corpo de uma mulher durante um trabalho de parto e parto. Sabemos hoje, que é difícil o trabalho de parto e parto fisiológico/natural ocorrer nas condições atuais deste "ambiente" hospitalar, que de uma forma global se generalizou em grande parte das instituições.
Para que o processo involuntário do trabalho de parto e parto ocorra é necessário um ambiente calmo, acolhedor, confortável, com pouca luz e ruído, poucos estímulos e total liberdade de movimentos da mulher. Só assim possibilitamos ou potenciamos o trabalho instintivo da natureza. Só assim é possível que o trabalho de parto e parto, seja conduzido pelo "cérebro primitivo" ou o sistema límbico (centro das emoções) da mulher em conjunto com as hormonas produzidas pelo feto e placenta.
E isto pode explicar tanto ou podia...a quem o quisesse entender. Será assim tão difícil perceber que
para permitir a "naturalidade" de um trabalho de parto é preciso que a privacidade da mulher não seja perturbada durante todo o processo?
Não será preciso muita ciência e estudos para perceber como parem os nossos "irmãos" mamíferos. Que ambiente procuram todas as fêmeas da nossa classe para parir? O que procura uma cadela ou uma gata?Todos sabemos que procura um local seguro, "escondido", quente, escurecido, longe de olhares e de perturbações.
Parir é um processo instintivo tanto para elas, como para nós, mulheres humanas, mas mamíferas.

Se sabemos isto, porque é que continuamos a falhar? Porque é que mudamos diariamente o rumo do que é natural?Porque é que tentamos justificar as nossas más práticas/rotinas com a culpa do outro?
O discurso que mais ouço dos profissionais e consequentemente das mulheres a quem é "vendida" esta ideia e justificada a necessidade da intervenção ou medicalização do trabalho de parto, é o de que, "o bebé não quis nascer, que a mãe não dilatou, ou que o trabalho de parto parou". 😱... tudo culpa do "outro". Pois bem!A ser tudo verdade a culpa não é do outro, mas nossa (profissionais).Nós e a cultura atual é que não permitimos que a fisiologia/naturalidade do parto aconteça...
Invadimos o quarto onde a mulher se encontra em trabalho de parto, questionamo-la, duvidamos da sua capacidade, observamo-la, mantemo-la debaixo de observações /monitorização, limitamos o seu espaço à cama, "proibindo-a" de se levantar, andar, ordenamos, impomos medicação para alívio dos seus desconfortos,  privamo-la de comer e beber, de gemer, de vocalizar a dor, causamos-lhe desconforto acrescido ao já desconforto existente do trabalho de parto. Em suma, interferimos negativamente em todo o processo natural do trabalho de parto e parto.
O pior é que, mesmo depois de cientificamente comprovadas as consequências nefastas para mãe e bebé desta nossa intervenção, continuamos na maior parte dos hospitais, a interferir e a intervir negativamente.
O parto fisiológico/natural  não é moda, nem tão pouco como tantas vezes ouço, é "coisa" para gente tola, naturalista, ou "hippie". Parto fisiológico/natural é o "normal" da nossa espécie. E tão necessário e crucial para a sobrevivência e saúde emocional das futuras gerações...

Dizer que nos dias de hoje não se justifica um parto fisiológico/natural é tão absurdo quanto dizermos que nos dias de hoje não se justifica precisarmos de dormir em silêncio, seguros, sem perturbações ou num ambiente escurecido.

Por essa razão, e porque desejo/desejamos um parto o mais natural e menos medicalizado possível. Porque acreditamos que tal é possível em meio hospitalar (mesmo que existam atualmente muito poucas opções nesse sentido).
Porque procuramos a garantia de uma assistência em que a fisiologia do parto seja respeitada, assim como respeitada seja a privacidade e a liberdade de escolhas informadas.
Porque desejamos que o nosso parto possa ser vivido num ambiente de proximidade, personalizado e como um acontecimento íntimo e familiar, escolhemos o Centro Hospitalar da Póvoa de Varzim/Vila do Conde para o nascimento do nosso bebé.

Como prometido num post anterior, aqui fica o link para acederem ao nosso Plano de Parto/ Preferências para o Nascimento do Francisco, enviado e aceite pelo CHPVVC.
O nosso Plano de Parto

Foto: impressão em tela da placenta da pequena M., amavelmente cedida pela mãe Sofia.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Onde irei parir e porquê "tão longe"?- Respeito pelo Plano de Parto (Parte II)

A par da azáfama de toda a preparação da chegada de um filho, desde a preparação do quarto, a compra do enxoval, a organização do baby shower, o molde da barriga de gesso, as sessões fotográficas e afins, deveria estar a "preparação" do parto.

Pessoalmente acho absurdo e um contrassenso prepararmos pormenorizadamente dias importantes da nossa vida, como um casamento, batizado de um filho, ou mesmo umas “férias de sonho”, e entregarmo-nos à sorte e ao que “outros” querem ou escolheram para nós, no dia mais importante da nossa vida e especialmente na vida do nosso bebé.

Trata-se do nosso parto, do nosso corpo e do corpo e saúde do nosso filho. A responsabilidade de um parto saudável, positivo, respeitado é e deveria ser uma responsabilidade partilhada entre a mulher/casal e os profissionais de saúde.
Uma ferramenta preciosa que nos permite preparar o dia do nascimento do nosso filho e assumir esta responsabilidade partilhada é o Plano de Parto/Plano de Nascimento ou Plano de Preferências para o Nascimento.

Este é um tema que considero ainda estar longe do entendimento e realidade de todas as grávidas.

O “sistema está montado” para que o “poder” de informação e de decisão esteja do lado dos profissionais. De um lado temos um modelo de cuidados ainda (infelizmente) muito usado, o modelo biomédico. Um modelo de cuidados centrado no controle ou ausência da doença, privilegiando a tecnologia, através de cuidados protocolados, cujas decisões estão centrados nos profissionais de saúde, e onde as necessidades individuais fisiológicas, emocionais ou culturais são negligenciadas ou deixadas para segundo plano. Do outro lado temos uma sociedade cuja literacia em saúde ainda está muito longe do desejável, uma sociedade maioritariamente “ignorante” e desinformada relativamente à sua saúde, que se desresponsabiliza do seu papel central nos cuidados de saúde que lhes são prestados. Uma sociedade que não questiona, que não coloca em causa as decisões de outro sobre si. Uma sociedade que nem os seus direitos, enquanto utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS), conhece.

As frases que mais ouço, quando abordo o tema do Plano de Nascimentos nas sessões com as grávidas/casais, são “mas nós temos opções?”, “mas nós podemos escolher?” “ O Plano de Parto existe?É possível?”
A todas estas questões respondo também aqui, neste post.

Temos sempre opções. É um direito do utente do SNS o consentimento (ou recusa) informado, livre e esclarecido, que pressupõe que a informação prestada pelo profissional de saúde seja facultada numa linguagem clara, acessível e isenta de juízos e que perante a posse dessa informação o utente consinta ou recuse os cuidados de saúde propostos.

E o Plano de Parto existe. A sua existência surge na década de 80, nomeadamente entre outros, com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Parto Normal, e a sua fomentação, implementação e respeito pelo mesmo, constitui um indicador de qualidade dos cuidados especializados em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica, devendo ser fomentado nas consultas de Enfermagem de vigilância de Saúde Materna e nos Cursos de Preparação para o Parto.

Construir um plano de parto permite à mulher consciencializar-se das várias fases do trabalho de parto, do que acontece em cada uma das fases, bem como os procedimentos/rotinas hospitalares mais comuns que são aplicados em cada fase.
Permite igualmente o conhecimento dos seus direitos enquanto mulher, durante a gravidez e parto.

Porque como já referi, o modelo de cuidados ainda enraizados na maior parte das maternidades, está centrado no modelo de cuidados repleto de procedimentos, protocolos e centrado nos profissionais de saúde, o parto é encarado de há umas décadas para cá, como um procedimento médico, desvalorizando-se por completo as necessidades físicas e emocionais das mulheres/casais. Para além deste aspeto, os avanços da medicina que permitem salvar a vida da mãe e bebé em situações de risco, e deveriam ser utilizados excecionalmente, tornaram-se rotinas( de entre os quais, a indução do parto ás 39/40 semanas, a rotura da bolsa amniótica, administração da hormona ocitocina no soro, os partos instrumentados, a cesariana agendada sem indicação, etc.). Procedimentos esses, muitas vezes realizadas sem o consentimento da mulher/casal, e que sem razão/justificação para acontecerem, colocam mãe e bebé em situação de risco.

Para além disso, muitos destes procedimentos/rotinas são desaconselhados ou considerados prejudiciais quer pela Organização Mundial de Saúde ( ver as recomendações da OMS em http://bionascimento.com/oms-recomendacoes-para-o-parto-normal/) quer pelas diversas evidências científicas continuamente publicadas  e de fácil acesso a todos os interessados e população em geral   (fonte de pesquisa válida e fidedigna: http://portugal.cochrane.org/ ), nomeadamente, os toques vaginais frequentes, a raspagem dos pêlos púbicos, a episiotomia (o corte realizado na vagina), pressionar o abdómen da mulher para “ajudar  a empurrar”, a privação da ingestão de líquidos, a privação da deambulação durante o trabalho de parto, a privação do uso de métodos não farmacológicos para o alívio da dor/desconforto, a “obrigatoriedade" da posição deitada no momento do período expulsivo, e tantos outros…

Aconselho (muito 👀) a leitura do documento “Reflexão sobre o trabalho de parto e parto: construção de um plano de preferências de parto"  da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (http://www.associacaogravidezeparto.pt/wp-content/uploads/2016/08/Reflex%C3%A3o-para-a-constru%C3%A7%C3%A3o-do-plano-de-parto-introducao.pdf ). Um documento que pretende ajudar as grávidas a refletir sobre o trabalho e parto e as opções que estarão ao seu dispor.

Uma das razões pelas quais escolhi o CHPVVC, para o nascimento do meu segundo filho foi a existência desta prática de qualidade. A existência de uma filosofia contrária ao modelo biomédico, um modelo de cuidados de saúde individualizados, centrados na mulher, bebé e sua família, sendo a mulher/grávida o centro das decisões. Um modelo, cujo parto é visto como um processo fisiológico e onde as intervenções não são realizadas por rotina, mas sim e só se forem necessárias. Um modelo que privilegia as práticas baseadas nas evidências científicas já anteriormente referidas. Onde cada parto é único, porque cada mulher/família é igualmente única, assim como únicas, valorizadas e respeitadas, são as opções e necessidades físicas e emocionais da  mulher.

Como tal e porque é privilegiada esta individualidade e respeitada a unicidade de cada casal, o parto é preparado de forma antecipada e com tempo para reflexões, opções conscientes e necessários reajustes.
O CHPVVC tem instituído uma Consulta de Plano de Parto, sendo o único,  até à data que tem instituído este tipo de consulta. Uma consulta multidisciplinar, cuja duração previsível são 60 minutos,  formada por uma equipa constituída por uma Enfª Especialista em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica/Parteira e um Médico Obstetra, onde se acolhe a mulher/casal e se ouve e discute as preferências deste quanto ao seu parto.

Estas preferências ficam documentadas, assinadas e anexadas ao processo clínico (salvaguardando que, durante o trabalho de parto e parto poderão surgir situações imprevisíveis, e tratando-se de um “plano” poderá ser necessário adaptá-lo, sendo que alterações são possíveis em qualquer altura, mas sempre de acordo com o casal  e com o seu consentimento).


Tratando-se de um serviço público, portanto gratuito e acessível a todas as utentes, e que de acordo com a legislação atual, acolhe ( e muito bem) qualquer mulher/casal independentemente do seu local de origem que o escolha para ocorrer o nascimento do deu filho (https://www.sns.gov.pt/noticias/2016/05/03/livre-acesso-e-circulacao-no-sns/) deixo a via e o contacto para quem quiser escolher, como eu, esta Unidade Hospitalar para o seu parto.

Basta entrar em contacto telefónico com o serviço administrativo: David Marques; Telefone: 252 690 600 / Extensão: 712 ) e junto deste solicitar o agendamento dos diversos serviços e/ou projetos disponíveis nesta unidade hospitalar, tais como:
- Consulta Médica de Especialidade de Obstetrícia (“consultas de termo” após as 35 semanas, estas também poderão ser solicitadas via referenciação informática Médico de Família); Consulta de Plano de Parto ou Preparação para a Parentalidade (Preparação par o Parto em solo; Preparação para o Parto em meio aquático; Puericultura e Aleitamento Materno)

Mais informações úteis: http://www.chpvvc.pt/ver.php?cod=0D0I


Informem-se por vocês e pelo vosso bebé…

 “If I don't know my options, I don't have any”. Diana Korte
 (“Se eu não conhecer as minhas opções, não terei nenhumas”)


Nota: Qualquer dúvida, informação adicional, esclarecimento, ou mesmo desacordo poderão entrar em contacto comigo. 😊😊

sábado, 15 de julho de 2017

Onde irei parir e porquê "tão longe"? (Parte I)

Esta é a pergunta à qual mais vezes tenho respondido ultimamente. Mesmo quem me conhece, me acompanha profissionalmente e conhece a “minha luta” pelos direitos da mulher/casal e pelo parto fisiológico, aborda-me nesse sentido.
Por essa razão irei partilhar convosco a minha resposta.
A resposta quanto ao local é: Centro Hospitalar Póvoa de Varzim/Vila de Conde.
A resposta quanto ao porquê? São duas as razões principais, intimamente ligadas entre elas.
A 1ª porque pretendo um PARTO RESPEITADO.
(Muitas vezes é utilizada a terminologia Parto Humanizado, mas porque acho que o termo  “humanizado”  conduz algumas vezes a leituras deturpadas ou confusas prefiro utilizar a palavra respeitado).

O que quero para mim é o que defendo, fomento e promovo às mulheres/casais que comigo se cruzam. Ter o poder de decisão e participar de todo o processo de escolhas, durante a gravidez, trabalho de parto e parto.

Tratando-se a gravidez de um período, a meu ver, “menos crítico” e “menos vulnerável” que o parto, considerei que o meu direito ao consentimento e recusa informada (direito de todos os utentes do Serviço Nacional de Saúde) estaria por si só “facilitado”. E assim tem sido. Tenho feito as minhas escolhas, ás vezes com algumas pressões, mas tratando de situações muito esporádicas e sem relevância, não têm interferido com a forma como estou a viver em plenitude esta gravidez.
Mas se considerei que durante a minha gravidez o processo de informação, decisão e escolha estaria protegido, tinha e tenho a certeza que durante o meu trabalho de parto e parto, não seria bem assim.
Sei por experiência própria e profissional que a vulnerabilidade da mulher/casal durante este período nos fragiliza e fragiliza igualmente a capacidade de lutarmos pelo que queremos, acreditamos e nos faz sentido.
Por outro lado, a acrescentar a esta vulnerabilidade, conheço muito bem a realidade obstétrica da maior parte das nossas maternidades, incluindo as mais próximas da minha residência.
Para além do modelo paternalista, que é a mesma coisa que dizer, “que os profissionais de saúde é que sabem”, reina a “filosofia da intervenção” e do não respeito. Não respeito pela fisiologia do parto, pelo casal e nascimento do seu filho e pelo próprio bebé que nasce.
Acrescido a este desrespeito, as rotinas e intervenções a que as mulheres são sujeitas não são maioritariamente apoiadas pelas evidências científicas, sendo que algumas são mesmo contra indicadas ou consideradas “más práticas” pela Organização Mundial de Saúde.

A 2ª razão que me levou a escolher o serviço público da Póvoa de Varzim para o nascimento do meu segundo filho, está diretamente relacionada com a anterior, e prende-se com a minha total recusa em ser vítima de Violência Obstétrica.
Recuso-se ser alvo, do abuso do “poder” dos profissionais de saúde e do seu desrespeito pelos Direitos Humanos. Recuso qualquer forma de violência, seja ela física ou psicológica.

Para mais informações sobre Violência Obstétrica poderão consultar o site https://sombrasdoparto.wordpress.com da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto, relativo a este tema.
Aproveito para apelar, a quem ainda não o tenha feito, para a assinatura da “Petição pelo fim da Violência Obstétrica nos blocos de parto dos hospitais portugueses” em http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT86154

No local que escolhi para parir, não estarei “á mercê da sorte de quem nos calha” que tantas vezes ouço por parte das mulheres que acompanho. Neste serviço existe uma filosofia de equipa em que cada parto é um momento único, irrepetível e importante demais para o considerarem “mais um”. O objetivo destes profissionais é permitir que a mulher/casal seja a protagonista do seu parto. É contribuir para que cada parto seja um momento o mais positivo e feliz possível. E não meramente “uma mãe e filho vivos”. Isso é importante, sim. Mas para mim e estes profissionais não é tudo.

Longe? Talvez… 100km e 1h de caminho, talvez seja considerado “longe” para alguns.
Para nós…
Quando está em causa, viver o momento do nascimento do nosso filho, de forma plena, digna, respeitada e saudável;
Quando sabemos que as práticas deste serviço se baseiam nas boas práticas e nas evidências científicas comprovadas, e que como tal respeitam o tempo e a fisiologia do parto;
Quando sei que neste serviço eu e a minha família seremos apoiados, acolhidos e respeitados, sem pressões ou julgamentos;
Quando sabemos que é o único serviço que fomenta e promove o Plano de Parto/Nascimento e o respeita;
Longe? É um mero e sem importância, pormenor…iríamos até ao Algarve se assim fosse necessário.

NOTA: Em breve apresentarei o meu Plano de Parto/Nascimento e explicarei pormenorizadamente porque é que este serviço é considerado um dos melhores a nível nacional, na área da Obstetrícia.
E apresentarei de que forma, qualquer mulher/casal grávido poderá usufruir deste serviço público de excelência.
Aproveito para aconselhar a visualização da Reportagem a “Árvore da Vida”, hoje na RTP1 no programa Linha da Frente às 20.45h.

*Foto captada da parede do Bloco de Partos do CHPVVC-Unidade da Póvoa de Varzim